Câmbio do diaRMB/¥ · US$ · R$
Relações interculturais com qualidade e profundidade
Atualizado diariamente

Artistas asiáticos estão usando inteligência artificial e outras tecnologias digitais para reinterpretar danças, músicas e outras manifestações culturais, criando novas formas de apresentar tradições sem necessariamente deixá-las presas ao passado

Uma dança tradicional tailandesa pode dividir o palco com um personagem criado por inteligência artificial. Instrumentos vietnamitas podem ser combinados, ao vivo, com música eletrônica. E movimentos transmitidos entre gerações podem ser transformados em modelos digitais capazes de gerar novas sequências.

Essas experiências estão acontecendo em diferentes partes da Ásia e levantam uma questão cada vez mais presente no campo da cultura: o que acontece quando tecnologias contemporâneas passam a participar da transmissão e da criação a partir de tradições culturais?

Um exemplo poderá ser visto na Coreia do Sul nos dias 10 e 11 de outubro, durante o programa Entangled: Asian Arts in the Cosmopolitical Age, realizado pelo Asia Culture Center (ACC). A iniciativa reúne artistas de seis países asiáticos e apresenta trabalhos que aproximam manifestações tradicionais de linguagens contemporâneas. Entre eles está a oficina “Traditional Gestures, New Perspectives: Thai Dance and AI”, conduzida pelo grupo tailandês VIVIDKAYA.

O programa não trata a tecnologia apenas como um recurso visual. A proposta é investigar como tradições podem ser experimentadas e reinterpretadas a partir de novas linguagens.

Quando a dança vira linguagem para a máquina

Um dos exemplos mais interessantes dessa aproximação vem da própria Tailândia.

©Pichet Klunchun Dance Company

O projeto Cyber Subin, desenvolvido pelo coreógrafo tailandês Pichet Klunchun em colaboração com pesquisadores do MIT Media Lab, procura transformar conhecimentos da dança tradicional tailandesa em um sistema capaz de interagir com bailarinos humanos.

A pesquisa parte do Mae Bot Yai, conjunto de 59 poses associado à dança tradicional tailandesa. Em vez de simplesmente registrar os movimentos em vídeo, os pesquisadores procuraram identificar princípios que estruturam essa linguagem corporal e traduzi-los para procedimentos computacionais.

O resultado é um sistema em que um personagem virtual pode dançar ao lado de artistas humanos. Os movimentos da máquina são gerados a partir de princípios derivados da dança tradicional, enquanto os bailarinos podem reagir, improvisar e modificar o desenvolvimento da apresentação.

A experiência transforma a relação entre tradição e tecnologia. Em vez de usar a inteligência artificial apenas para reproduzir um movimento antigo, o projeto procura criar uma nova forma de diálogo entre o conhecimento transmitido pelo corpo e uma tecnologia capaz de gerar movimentos.

É uma diferença importante. Preservar uma dança por meio de uma gravação significa guardar um registro de como ela foi executada. Transformar seus princípios em um sistema interativo significa tentar preservar parte do conhecimento que está por trás do movimento e, ao mesmo tempo, permitir que ele seja reorganizado.

A tradição também pode mudar

Essa ideia aparece de maneira mais ampla na programação do ACC.

O grupo VIVIDKAYA, responsável pela oficina de dança e inteligência artificial, trabalha justamente na combinação entre artes tradicionais tailandesas e tecnologia digital. Em sua apresentação Flight of Kinaree, por exemplo, elementos de diferentes tradições performáticas tailandesas são colocados em contato com música eletrônica, projeções e ferramentas de inteligência artificial.

No Vietnã, o GIAO Collective segue outro caminho. O grupo combina instrumentos tradicionais, como o đàn bầu, o đàn nguyệt e flautas de bambu, com piano, eletrônica e dança contemporânea. A proposta não é reproduzir uma apresentação tradicional, mas criar novas relações entre seus sons e estruturas.

A experiência mostra que a relação entre tradição e tecnologia não precisa acontecer somente por meio da inteligência artificial. Processamento eletrônico de som, projeções, modelos digitais e outras ferramentas também podem alterar a maneira como uma manifestação cultural é apresentada e percebida.

No Vietnã, outro projeto recente levou essa aproximação para o campo da educação e da experiência digital. Desenvolvido por estudantes da FPT University, Dáng Hình Di Sản (Shapes of Heritage) utiliza modelos em 3D, performances geradas por IA e narrativa digital para apresentar manifestações do patrimônio cultural vietnamita a novos públicos.

O que a tecnologia preserva — e o que ela não consegue reproduzir?

É justamente nesse ponto que a discussão fica mais complexa.

(Foto Lee Chia Yeh & Pichet Klunchun Dance Company)

Uma dança tradicional não é apenas uma sequência de movimentos. Ela envolve pessoas, memória, contexto, aprendizado e transmissão de conhecimento. Quando esses elementos são transformados em dados para serem utilizados por sistemas digitais, parte da experiência pode ser registrada, mas outra parte pode permanecer fora do modelo.

O próprio projeto Cyber Subin reconhece essa diferença ao apontar que tecnologias de captura de movimento conseguem registrar a dimensão visual de uma dança, mas não necessariamente seu conhecimento tácito e sua capacidade de improvisação.

A UNESCO também vem discutindo essa questão. A organização reconhece que a inteligência artificial pode ajudar a documentar, preservar e compartilhar o patrimônio cultural imaterial, mas alerta para riscos como apropriação, distorção, vieses e uso inadequado de conhecimentos culturais. Para a entidade, as comunidades que mantêm essas tradições precisam permanecer no centro desse processo.

Em setembro de 2026, a própria UNESCO realizou uma conferência dedicada à relação entre inteligência artificial e patrimônio cultural vivo, discutindo justamente como essas tecnologias podem alterar as formas de documentação, pesquisa e transmissão das tradições.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se a inteligência artificial pode “salvar” uma tradição. É entender quem participa dessa transformação, quais conhecimentos são utilizados e o que acontece quando uma prática cultural passa a existir também dentro de um sistema digital.

Na Ásia, artistas e pesquisadores já estão experimentando algumas dessas respostas. Em vez de tratar tradição e inovação como opostos, eles estão testando formas de colocá-las em diálogo.

Uma dança pode ganhar um parceiro virtual. Um instrumento antigo pode encontrar novos sons. Uma manifestação cultural pode ser transformada em uma experiência digital para alcançar uma nova geração.

Nesse processo, a tradição deixa de ser vista apenas como algo que precisa ser preservado exatamente como era e passa a ser também um conhecimento que pode continuar sendo interpretado, praticado e recriado.

O desafio está em garantir que, ao entrar no mundo das máquinas, ela continue pertencendo às pessoas que a mantêm viva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress