Por: Ana Clara Costa

As enormes representações de Durga, acompanhada de seus filhos e retratada no confronto com Mahishasura, o demônio em forma de búfalo, ocupam as cidades de Bengala durante o Durga Puja. A celebração reúne preces e homenagens à deusa, mas também é marcada por reencontros familiares e pela participação das comunidades.
Realizado em uma data que varia a cada ano, conforme o calendário lunar hindu, o festival tem como figura central Durga, uma divindade associada à força e à proteção. Nas tradições hindus, ela assume diferentes aspectos, entre eles o de uma figura guerreira, capaz de enfrentar forças ameaçadoras, e o de uma mãe divina. Em muitas representações bengalis, ela aparece acompanhada de seus filhos, entre eles divindades amplamente veneradas no hinduísmo. Em dezembro de 2021, o Durga Puja em Calcutá, capital de Bengala Ocidental, na Índia, entrou para a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela UNESCO, um reconhecimento atrelado à arte, ao engajamento popular e à celebração em comunidade.
Segundo a tradição hindu, Durga lutou contra Mahishasura a pedido dos outros deuses. Fortalecido por uma bênção que o tornava invulnerável a eles, o demônio passou a ameaçar a ordem cósmica. Para derrotá-lo, as divindades uniram suas forças e deram origem à deusa, que recebeu delas as armas necessárias para o combate. Em algumas interpretações, Mahishasura simboliza o egoísmo e a força bruta voltada à satisfação dos próprios interesses. Essa batalha inspira uma das representações mais conhecidas do Durga Puja: a deusa enfrentando o demônio com seu leão ao lado.

Além da batalha monumental, o festival também é marcado por uma dimensão mais íntima: a narrativa em que Durga é vista como uma filha que, mesmo depois de formar sua própria família com o marido e os filhos, retorna à casa dos pais para uma visita de alguns dias. Essa tradição aproxima a celebração da experiência familiar cotidiana. As casas se enchem de familiares, enquanto as ruas ficam repletas de pessoas reunidas para celebrar. A comunidade se junta em meio à arte, aos tambores e à beleza das festividades. Ao destacar o retorno da deusa, a tradição também permite refletir sobre como o casamento não apaga os vínculos com a família de origem. A chegada, os dias de celebração e a emoção da despedida fazem parte dessa visita, acolhendo diferentes sentimentos ao longo do reencontro.
Os pandals, enormes estruturas temporárias construídas para abrigar as imagens da divindade, são erguidos com a participação da comunidade. Cada um tem seu próprio estilo e inspirações, incluindo referências locais, arquitetônicas e temas sociais e ambientais. Ao final da celebração, as imagens de Durga são imersas em um ritual chamado visarjan, que marca a despedida da deusa. Tradicionalmente, as esculturas são feitas de argila, muitas vezes proveniente do rio Ganges. A imersão simboliza o retorno à origem e o encerramento da visita, em um momento marcado por emoção e significado religioso.

