Para além do que é visto

Quando se fala em cultura coreana, os primeiros exemplos costumam vir do K-pop, das séries ou do cinema que conquistaram audiências internacionais. Porém, por trás desse fenômeno conhecido como K-culture, existe um ecossistema cultural mais amplo, formado por tradições, saberes e práticas artísticas que sustentam essa presença global.
Entre essas expressões está a minhwa, pintura popular coreana marcada por simbolismos e narrativas ligadas à vida cotidiana. Durante séculos, tigres, flores, pássaros ou estantes de livros foram retratados não apenas como imagens decorativas, mas como portadores de desejos coletivos de prosperidade, longevidade e harmonia familiar.
Em viagem ao Brasil para a abertura da exposição Rota da Minhwa: dois espaços, uma experiência, no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), os professores da Universidade Dongduk — Song Chang-su, especialista na prática da minhwa, e Kim Min, pesquisador dedicado à ciência dos materiais e à conservação do patrimônio cultural — concederam entrevista ao Conexão Ásia.
A seguir, explicam como essa tradição continua a se reinventar e por que compreendê-la exige ir além da superfície das imagens.
Comida como oferenda, mas para “deuses” humanos

Qual a probabilidade de uma profissional de Estatística virar especialista em gastronomia? Pois a chinesa Jiang Pu faz parte dessa amostra. Formada pela USP – Universidade de São Paulo, ela não hesitou quando, depois de um ano de trabalho, achou melhor abrir mão do emprego para trocar percentuais e planilhas pelo prazer de cozinhar. Incentivada por amigos, ela se inscreveu no reality MasterChef Brasil, conquistando o terceiro lugar na segunda temporada do programa. Desde então, construiu uma trajetória na gastronomia como consultora, vem ampliando sua atuação na área e destaca-se pelo conhecimento da culinária chinesa, tema sobre o qual fala na entrevista a seguir.
Criatividade, a commodity mais valiosa do mundo

O intercâmbio cultural dentro do mercado de comunicação e marketing brasileiro avança à medida que empresas chinesas ampliam sua presença no Brasil e no Ocidente em geral. Esse movimento impõe desafios às equipes locais, que passam a atuar em ambientes marcados por diferenças de ritmo, linguagem, processos decisórios e referências culturais. Nesse contexto, compreender culturas deixa de ser uma questão protocolar e passa a ser um fator de desempenho. É quando entra em cena profissionais como Pierre Loo, que traduzem esse encontro entre Oriente e Ocidente com autoridade. Criativo premiado e líder com sólida atuação internacional, ele construiu sua carreira navegando entre esses dois universos, conectando estratégias globais a sensibilidades locais. Sua trajetória serve de exemplo do quanto, nesse mundo interligado, é importante a capacidade de dialogar entre culturas e de entender que – como ele mesmo diz – a criatividade é a commodity mais valiosa de todas.
Desvendando a esfinge chinesa

A atual foto de perfil no instagram do pesquisador e empreendedor chinês Yuanpu Huang – @yuanunpackschina – o mostra à frente da grande estátua da Esfinge de Gizé, no Egito. A mesma que, na mitologia, propunha um enigma aos viajantes que por ela passavam: “Decifra-me ou te devoro”. Para ele, mestre em relações internacionais pela China Foreign Affairs University, com formação em finanças pela Universidade Tsinghua e outras formações pela Universidade de Nova York, a ideia da foto foi mais convidativa. Seu objetivo foi mostrar que a nova geração chinesa está mais aberta a conhecer outras culturas e interagir com novos mercados. Fundador da EqualOcean, plataforma global de pesquisa e consultoria em inovação e globalização chinesas, ele tem buscado ampliar essa percepção. E, se alguém ainda vê a China como uma esfinge cheia de mistérios e pronta para devorar o primeiro que passar, Yuan deixa qualquer enigma de lado e é direto ao desvendar o próprio país, sem medo de encarar as esfinges dos demais.
O papel do Ano Novo Chinês no calendário brasileiro

As celebrações do Ano Novo Chinês já integram o calendário cultural da comunidade chinesa no Brasil, ocupando ruas, centros culturais e agendas institucionais nas grandes cidades. Mais do que uma data festiva, o evento expressa uma forma própria de organizar o tempo, valorizar a família e compreender a relação entre trabalho, natureza e sociedade. Aqui no Brasil, onde as relações com a China crescem de forma consistente, essas celebrações são oportunidades para marcas e profissionais que dialogam com o público chinês. É nesse contexto que Bob Wei, presidente da Chinarte – empresa que há mais de 20 anos atua na construção de pontes entre China e Brasil por meio de soluções de comunicação – explica por que entender esses códigos culturais deixou de ser curiosidade e passou a ser estratégia.
Tecnologia na veia

A consolidação da China como um dos principais polos globais de biotecnologia tem impactos diretos sobre sistemas de saúde, pesquisa científica e estratégias de inovação em diversos países, incluindo o Brasil. À frente da MGI Tech, empresa chinesa com atuação em mais de 100 mercados, Duncan Yu explica nesta entrevista como tecnologias de sequenciamento genético, automação laboratorial entre outros vêm sendo incorporadas a políticas públicas, projetos de pesquisa e iniciativas voltadas à sustentabilidade. Ao detalhar a atuação da companhia no Brasil, o executivo aborda o modelo chinês de desenvolvimento tecnológico, suas parcerias locais e os efeitos práticos dessa estratégia para a ciência, a saúde e o ambiente de negócios na relação bilateral entre Brasil e China.
“Mandarim como ativo profissional”

Idealizador da implementação do primeiro Instituto Confúcio do Brasil, inaugurado em 2008, o professor Luis Antonio Paulino foi pioneiro ao enxergar a dimensão estratégica que a China teria para o país no século 21. Hoje, à frente de uma rede presente em todo o território nacional, responsável pelo ensino da língua e divulgação da cultura chinesa, ele defende o estudo do mandarim como ferramenta essencial. E isso de forma acadêmica e profissional, especialmente para quem atua em um ambiente cada vez mais integrado ao eixo Brasil-China, como especialistas em propaganda e marketing.
Muito além da burocracia

A relação Brasil-China avança, e com ela as oportunidades de negócios. Mas é preciso ir além da burocracia jurídica, das formalidades contratuais e das missões que viram turismo. Negociações eficazes nascem da leitura das sutilezas culturais e dos modos de trabalho que só quem vive as duas realidades consegue interpretar. É nesse ponto que a atuação da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE) torna-se decisiva, como fica evidente na entrevista a seguir com o seu presidenteexecutivo, Oscar Wei.
Mais espaço para livros chineses

Habituado a encarar multidões que se debruçam sobre as bancas das editoras durante as feiras de livros, o editor da Anita Garibaldi e coordenador do Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois, Cláudio Gonzalez, tem um termômetro preciso das preferências do público sobre os títulos. E na última Feira do Livro da USP, em novembro, uma preferência ficou ainda mais clara: o interesse por obras chinesas e sobre a China é uma realidade crescente. Na entrevista a seguir, ele fala de oportunidades e desafios para o segmento editorial aproveitar esse momento.
Desafio aceito

“Como você vai largar sua carreira para trabalhar com confecção?” Foi essa a pergunta que a publicitária Cinthia Kim ouviu dos pais coreanos ao trocar a vida corporativa pelo negócio da família no Bom Retiro, bairro paulistano que segue crescendo sob uma forte influência coreana. A escolha se mostrou acertada e a levou à presidência da Associação Brasileira da Indústria do Vestuário (ABIV). Hoje, como a primeira mulher à frente da entidade, ela busca reposicionar a percepção pública do bairro ao peso econômico e cultural real que ele tem.