Relações interculturais com qualidade e profundidade

Relações interculturais
com qualidade e profundidade

Quando respirar se torna um posicionamento coletivo

Respirar é, no cotidiano, um gesto individual e automático de vida. Na ilha de Jeju, na Coreia do Sul, porém, grupos de mulheres mostram que essa prática também pode ser um posicionamento coletivo. Há gerações, elas mergulham em águas geladas e cheias de riscos para colher frutos do mar em apneia, sem qualquer equipamento de respiração. Mais do que qualquer lógica de competição individual, permanecem atentas às condições do mar, aos cuidados necessários e ao fôlego umas das outras, em uma espécie de “respiração coletiva”. São as Haenyeo (pronuncia-se ré-nió), personagens que a pesquisadora Jinhee Park, curadora da exposição “Sopro do Mar – Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade”, aproxima do público brasileiro com a mostra em exibição no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), em São Paulo, até 30 de agosto, como ela conta a seguir.

Somos todos asiáticos?

A pergunta do título é um convite à reflexão sobre a identidade do brasileiro. A ciência, por meio da genética, já comprovou que o Homo sapiens sapiens, a espécie humana que conhecemos hoje, surgiu na África, de onde se espalhou pelo mundo, cruzando, em sua trajetória, com outras espécies, como os neandertais na Europa e, em partes da Ásia, com grupos como os denisovanos.

No caso das Américas, estudos indicam que os povos originários descendem diretamente de populações vindas da Ásia há milhares de anos. Por isso, falar da pré-história do Brasil é também reconhecer uma conexão profunda com o continente asiático.

Nesta entrevista, Pedro Paulo Funari, historiador, antropólogo, arqueólogo, professor da Unicamp e autor de livros como “Pré-história do Brasil”, da Editora Contexto, ajuda a ampliar esse olhar. Mais do que revisitar o passado, a conversa lembra que o Brasil não começou em 1500 e que conhecer a história, os saberes, as línguas, a arte e a cultura dos povos indígenas é essencial para contar quem são os brasileiros, de fato, com mais justiça, respeito e verdade.

Vietnã para além de Hollywood

Valter Peixoto nasceu em Santos, São Paulo, cidade onde o maior porto da América Latina aproxima o Brasil do mundo todos os dias. Nesse ambiente, marcado pela circulação de mercadorias e pelo encontro entre diferentes países, ele iniciou uma trajetória profissional.

Especialista em comércio exterior, com pós-graduação em relações internacionais e uma veia de comunicador, Valter encontrou no podcast Mente Mundo uma forma de transformar curiosidade, pesquisa e análise em conteúdo acessível. Seu olhar se voltou para o Sudeste Asiático, mas nesta entrevista ele fala especificamente do Vietnã, país muitas vezes ainda visto pelo imaginário ocidental a partir da guerra e das narrativas de Hollywood.

Para ele, no entanto, o Vietnã precisa entrar no radar dos brasileiros como exemplo de desenvolvimento, estratégia, resiliência histórica e pragmatismo econômico, como conta a seguir.

Mais do que tecnologia, a China como motor de esperança

O veterinário Arthur Catunda de Freitas é um dos jovens brasileiros que escolheram estudar na China. Mas a experiência no país asiático ultrapassa a formação acadêmica e se conecta a uma constatação mais ampla: a de que processos profundos de transformação social e econômica podem, de fato, acontecer.

“Se a China, que estava muito pior do que o Brasil, conseguiu se transformar no que é hoje, nós também conseguimos.” Com essa avaliação, ele afirma ser grato por sua vivência ter mudado sua percepção de futuro e resgatado sua esperança de que uma sociedade menos desigual e mais equilibrada também possa se tornar uma realidade brasileira.

E são essas reflexões que ele compartilha em seu instagram, quase como crônicas digitais, descontruindo estereótipos e ampliando o entendimento sobre a vida chinesa contemporânea, como conta na entrevista a seguir.

Para além do que é visto

Quando se fala em cultura coreana, os primeiros exemplos costumam vir do K-pop, das séries ou do cinema que conquistaram audiências internacionais. Porém, por trás desse fenômeno conhecido como K-culture, existe um ecossistema cultural mais amplo, formado por tradições, saberes e práticas artísticas que sustentam essa presença global.
Entre essas expressões está a minhwa, pintura popular coreana marcada por simbolismos e narrativas ligadas à vida cotidiana. Durante séculos, tigres, flores, pássaros ou estantes de livros foram retratados não apenas como imagens decorativas, mas como portadores de desejos coletivos de prosperidade, longevidade e harmonia familiar.
Em viagem ao Brasil para a abertura da exposição Rota da Minhwa: dois espaços, uma experiência, no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), os professores da Universidade Dongduk — Song Chang-su, especialista na prática da minhwa, e Kim Min, pesquisador dedicado à ciência dos materiais e à conservação do patrimônio cultural — concederam entrevista ao Conexão Ásia.
A seguir, explicam como essa tradição continua a se reinventar e por que compreendê-la exige ir além da superfície das imagens.

Comida como oferenda, mas para “deuses” humanos

Qual a probabilidade de uma profissional de Estatística virar especialista em gastronomia? Pois a chinesa Jiang Pu faz parte dessa amostra. Formada pela USP – Universidade de São Paulo, ela não hesitou quando, depois de um ano de trabalho, achou melhor abrir mão do emprego para trocar percentuais e planilhas pelo prazer de cozinhar. Incentivada por amigos, ela se inscreveu no reality MasterChef Brasil, conquistando o terceiro lugar na segunda temporada do programa. Desde então, construiu uma trajetória na gastronomia como consultora, vem ampliando sua atuação na área e destaca-se pelo conhecimento da culinária chinesa, tema sobre o qual fala na entrevista a seguir.

Criatividade, a commodity mais valiosa do mundo

O intercâmbio cultural dentro do mercado de comunicação e marketing brasileiro avança à medida que empresas chinesas ampliam sua presença no Brasil e no Ocidente em geral. Esse movimento impõe desafios às equipes locais, que passam a atuar em ambientes marcados por diferenças de ritmo, linguagem, processos decisórios e referências culturais. Nesse contexto, compreender culturas deixa de ser uma questão protocolar e passa a ser um fator de desempenho. É quando entra em cena profissionais como Pierre Loo, que traduzem esse encontro entre Oriente e Ocidente com autoridade. Criativo premiado e líder com sólida atuação internacional, ele construiu sua carreira navegando entre esses dois universos, conectando estratégias globais a sensibilidades locais. Sua trajetória serve de exemplo do quanto, nesse mundo interligado, é importante a capacidade de dialogar entre culturas e de entender que – como ele mesmo diz – a criatividade é a commodity mais valiosa de todas.

Desvendando a esfinge chinesa

A atual foto de perfil no instagram do pesquisador e empreendedor chinês Yuanpu Huang – @yuanunpackschina – o mostra à frente da grande estátua da Esfinge de Gizé, no Egito. A mesma que, na mitologia, propunha um enigma aos viajantes que por ela passavam: “Decifra-me ou te devoro”. Para ele, mestre em relações internacionais pela China Foreign Affairs University, com formação em finanças pela Universidade Tsinghua e outras formações pela Universidade de Nova York, a ideia da foto foi mais convidativa. Seu objetivo foi mostrar que a nova geração chinesa está mais aberta a conhecer outras culturas e interagir com novos mercados. Fundador da EqualOcean, plataforma global de pesquisa e consultoria em inovação e globalização chinesas, ele tem buscado ampliar essa percepção. E, se alguém ainda vê a China como uma esfinge cheia de mistérios e pronta para devorar o primeiro que passar, Yuan deixa qualquer enigma de lado e é direto ao desvendar o próprio país, sem medo de encarar as esfinges dos demais.

O papel do Ano Novo Chinês no calendário brasileiro

As celebrações do Ano Novo Chinês já integram o calendário cultural da comunidade chinesa no Brasil, ocupando ruas, centros culturais e agendas institucionais nas grandes cidades. Mais do que uma data festiva, o evento expressa uma forma própria de organizar o tempo, valorizar a família e compreender a relação entre trabalho, natureza e sociedade. Aqui no Brasil, onde as relações com a China crescem de forma consistente, essas celebrações são oportunidades para marcas e profissionais que dialogam com o público chinês. É nesse contexto que Bob Wei, presidente da Chinarte – empresa que há mais de 20 anos atua na construção de pontes entre China e Brasil por meio de soluções de comunicação – explica por que entender esses códigos culturais deixou de ser curiosidade e passou a ser estratégia.

Tecnologia na veia

A consolidação da China como um dos principais polos globais de biotecnologia tem impactos diretos sobre sistemas de saúde, pesquisa científica e estratégias de inovação em diversos países, incluindo o Brasil. À frente da MGI Tech, empresa chinesa com atuação em mais de 100 mercados, Duncan Yu explica nesta entrevista como tecnologias de sequenciamento genético, automação laboratorial entre outros vêm sendo incorporadas a políticas públicas, projetos de pesquisa e iniciativas voltadas à sustentabilidade. Ao detalhar a atuação da companhia no Brasil, o executivo aborda o modelo chinês de desenvolvimento tecnológico, suas parcerias locais e os efeitos práticos dessa estratégia para a ciência, a saúde e o ambiente de negócios na relação bilateral entre Brasil e China.