Por Yasmin Yan, jornalista do Brasil China para o Conexão Ásia

Em outubro, Nanjing, na China, é banhada pela luminosidade do outono. Esta antiga cidade, marcada pelas paisagens e pela história das Seis Dinastias, revela, no encontro entre os feriados do Dia Nacional (1° de outubro) e do Festival do Meio do Outono, uma atmosfera urbana singular – ao mesmo tempo solene, pela história que acumulou ao longo dos séculos, e vibrante, pela intensidade das celebrações.
O Portão Xuanwu é a entrada oeste do Parque do Lago Xuanwu, em Nanjing. Sua história remonta ao fim da dinastia Qing, quando foi construído em decorrência da abertura de uma nova via. Depois de passar por diversas reformas, tornou-se uma das principais entradas para o lago.
Antigamente conhecido como Sangbo, o Lago Xuanwu foi o local onde Sun Quan treinou suas tropas navais durante o período dos Três Reinos. Na época das Seis Dinastias, tornou-se um jardim imperial e, durante a dinastia Ming, foi transformado em área restrita destinada à guarda dos arquivos dos chamados Registros Amarelos. Ao longo de mais de mil anos, essas águas permaneceram intimamente ligadas ao destino da cidade de Nanjing.
Durante o feriado do Dia Nacional, o Lago Xuanwu transforma-se em uma grande celebração popular. Ao atravessar o Portão Xuanwu, a paisagem se abre diante dos olhos: dos dois lados da ampla avenida principal, o lago se estende como um longo tecido de seda, enquanto barcos de diversas cores parecem contas espalhadas sobre a superfície, balançando lentamente sob a luz refletida pelas águas.
Famílias passeiam de barco pelo lago, casais se aconchegam na proa e grupos de amigos seguem juntos. A luz do sol se fragmenta em milhares de reflexos dourados e se espalha sobre cada rosto sorridente, como se a felicidade tivesse adquirido uma forma concreta, cintilando em pequenos pontos sobre as águas verdes.
Seguindo pela margem do lago e caminhando pela Huanzhou Road, encontram-se cantores populares nas redes sociais realizando pequenos shows em diferentes pontos. As apresentações também são transmitidas ao vivo pelo celular. Fãs e visitantes se sentam em círculos, segurando bastões luminosos ou usando as luzes dos próprios telefones. Para pedir uma música, bastam 50 yuans.

As canções deslizam sobre a superfície da água e se misturam ao som do lago e às risadas, formando uma agitação suave e acolhedora. As luzes lembram vagalumes, enquanto as pessoas se entrelaçam na paisagem. A margem do lago transforma-se, assim, em um rio de estrelas em movimento.
De repente, a multidão abre espontaneamente espaço no caminho. Um grupo de praticantes de caminhada acelerada, vestindo uniformes coloridos e padronizados, atravessa a passagem ao som de música, seguindo o ritmo e entoando palavras de ordem. Caminham com energia, vigor e passos firmes.
“Essas pessoas parecem medir a alegria, como se formassem uma verdadeira companhia popular de celebração.”
Logo atrás, sucedem-se os espaços dedicados às danças de praça. As saias rodopiantes da dança de Xinjiang se abrem como flores; na dança mongol, ombros e costas se expandem como asas de águias; os tambores de cintura ressoam sob os últimos raios do pôr do sol; e os dragões, com suas escamas douradas, serpenteiam pela penumbra.
As roupas são vivas como pinceladas de tinta, a maquiagem é cuidadosamente composta como em uma pintura e os adereços têm qualidade de palco. Com seus próprios passos, essas pessoas parecem medir a alegria, como se formassem uma verdadeira companhia popular de celebração.
Não muito longe dali, os mais jovens empinam pipas iluminadas por pequenas luzes coloridas. Elas sobem serpenteando pelo céu e disputam brilho com o entardecer. Ao erguer os olhos, vê-se o céu e o gramado tomados por cores, como se até a própria terra tivesse aprendido a emitir luz.

Depois de atravessar a Ponte Guanshan, sobre o lago, chega-se a um tranquilo bosque de salgueiros. Seus ramos pendem como cortinas até a superfície da água e balançam suavemente quando o vento passa, como se murmurassem palavras de amor.
Ali fica Lingzhou, uma das áreas do Lago Xuanwu, também conhecida como um dos lugares escolhidos pelos casais para se encontrar. Silhuetas lado a lado nos bancos e passos de mãos dadas pelos caminhos se integram à delicada paisagem verde.
Depois da Ponte Tingshui, ouvem-se vozes de jovens vindas das cabines de karaokê de autoatendimento. Mesmo através dos vidros, é possível sentir a efervescência daquela juventude.
Mais adiante, aos pés das muralhas próximas ao Portão Jiefang, praticantes de dança latina se movimentam ao som de uma música intensa. Diante das antigas muralhas, as saias vermelhas giram formando “chamas”. Dançarinos de diferentes idades rodopiam e marcam os passos; no movimento dos quadris e dos ombros, há uma vitalidade capaz de atravessar o tempo.
O encontro entre os tijolos antigos, marcados pelos séculos, e os ritmos contemporâneos produz uma curiosa sensação de atravessamento temporal. Música, dança e paixão pela vida não reconhecem fronteiras: pertencem a uma dimensão espiritual compartilhada pela humanidade.
Pelas vias que acompanham as muralhas, praticantes de patinação passam entre as pessoas. Pequenas bandeiras nacionais estão presas às suas roupas, enquanto as luzes dos patins desenham arcos luminosos no movimento. Seus corpos ágeis lembram andorinhas rasando a água, e toda aquela energia parece voar ao vento junto com as bandeiras.

Depois de completar quase toda a volta ao redor do lago e se aproximar novamente do Portão Xuanwu, surpreende a quantidade de pessoas reunidas nos espaços destinados à dança de salão, principalmente homens e mulheres de meia-idade e idosos.
As roupas coloridas se movimentam com a brisa da noite, enquanto os passos, acompanhando o ritmo, são tranquilos e elegantes. A idade não parece representar qualquer barreira: todos mantêm a mesma vivacidade. Há, em seus movimentos, a serenidade que os anos trazem, mas também um entusiasmo que não perdeu a intensidade com o tempo.
“Neste antigo jardim imperial, sob muralhas que atravessaram séculos, elas expressam uma forma chinesa de romantismo e de celebração.”
À beira do lago, olhando para os edifícios altos que se erguem do outro lado, dentro das muralhas, vê-se o lugar onde, nos dias úteis, as pessoas trabalham intensamente. Elas são dedicadas, rigorosas e discretas – uma imagem que, de certa forma, corresponde à maneira como os chineses costumam ser vistos por muitas pessoas no mundo.
Mas, com a chegada conjunta do Dia Nacional e do Festival do Meio do Outono, ao deixarem o espaço das muralhas, essas mesmas pessoas mostram-se vibrantes, ativas e à vontade. Neste antigo jardim imperial, sob muralhas que atravessaram séculos, elas expressam uma forma chinesa de romantismo e de celebração.
Essa celebração não é uma manifestação desordenada, mas uma expansão do espírito sustentada por uma vida de prosperidade e tranquilidade. Música, dança, canto e luzes são também expressões de um país em paz e de uma sociedade que vive com estabilidade.

Os chineses não correspondem apenas à imagem de pessoas rigorosas e dedicadas ao trabalho. Também sabem celebrar a vida, nesta terra antiga, das maneiras mais simples.
É justamente dessa segurança e dessa serenidade que nasce a confiança proporcionada por um país forte.
Dentro e fora das muralhas, movimento e quietude convivem. E talvez esteja justamente aí um dos retratos mais verdadeiros da China de hoje.
