Relações interculturais com qualidade e profundidade

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Desvendando a esfinge chinesa

A atual foto de perfil no instagram do pesquisador e empreendedor chinês Yuanpu Huang – @yuanunpackschina – o mostra à frente da grande estátua da Esfinge de Gizé, no Egito. A mesma que, na mitologia, propunha um enigma aos viajantes que por ela passavam: “Decifra-me ou te devoro". Para ele, mestre em relações internacionais pela China Foreign Affairs University, com formação em finanças pela Universidade Tsinghua e outras formações pela Universidade de Nova York, a ideia da foto foi mais convidativa. Seu objetivo foi mostrar que a nova geração chinesa está mais aberta a conhecer outras culturas e interagir com novos mercados. Fundador da EqualOcean, plataforma global de pesquisa e consultoria em inovação e globalização chinesas, ele tem buscado ampliar essa percepção. E, se alguém ainda vê a China como uma esfinge cheia de mistérios e pronta para devorar o primeiro que passar, Yuan deixa qualquer enigma de lado e é direto ao desvendar o próprio país, sem medo de encarar as esfinges dos demais.

Você diz que sua missão para os próximos 20 anos é conectar a China com o mundo. Poderia contar um pouco sobre a decisão que te levou a essa missão e sua trajetória até aqui?
Nos últimos 20 anos, meu trabalho tem sido conectar pessoas dentro da China. Agora, tenho conectado empreendedores chineses com empreendedores estrangeiros. Como chinês, acredito muito que, nos próximos anos, a China vai se tornar a principal potência global. Algumas pessoas dizem que isso já aconteceu, mas acho que ainda precisamos de mais tempo. E eu não quero que a China seja uma superpotência que interfere nos outros países. Quero que seja uma potência que construa boas relações, especialmente com os países do Sul Global. A geração anterior, como Jack Ma ou Richard Liu, construiu grandes empresas do zero. A minha geração tem a missão de conectar a China ao mundo. Somos mais globalizados. Queremos contribuir mais com outros países. Conheço muitos jovens empreendedores chineses, muito ambiciosos, com visão global. Eles querem criar marcas reconhecidas mundialmente. Eu me vejo mais como alguém que conecta a China culturalmente com outros países. Somos diferentes, mas temos a mesma visão: tornar a China melhor e contribuir mais com o mundo.

 

O mundo hoje quer ver a China de perto, e você é um chinês que está sempre indo ver o mundo. Qual a sua percepção sobre ele e sobre como o mundo vê a China?
Nos últimos três anos, visitei mais de 60 países. Fui a Bangladesh, Iraque, Nigéria, Quênia, Brasil, Chile, México, Argentina, Uzbequistão, Cazaquistão, entre muitos outros.Tradicionalmente, os chineses não gostam muito de sair do país. Na nossa cultura, existe um ditado: 父母在不远游 (fù mǔ zài, bù yuǎn yóu), que significa de uma forma mais contextualizada: “Se seus pais ainda estão vivos, você não deve morar ou viajar para muito longe deles.” Na tradição confucionista, os filhos têm a responsabilidade de permanecer próximos dos pais para poder cuidar deles, especialmente na velhice.Quando somos jovens, nossos pais cuidam de nós. Quando eles envelhecem, nós cuidamos deles. Por isso, culturalmente, não é comum sair para morar longe, especialmente no exterior.Além disso, a China é muito grande, com um mercado enorme. É como o Brasil: não é preciso sair do país para encontrar oportunidades. Cada província chinesa é como um país.

 

Mas estão viajando mais, não?
Depois da pandemia, desde 2022 e 2023, começou uma nova onda de empresas chinesas indo para o exterior. Ainda estamos em um estágio inicial.A maioria dos chineses sabe pouco sobre outros países. Mesmo tendo uma visão internacional, conhecemos pouco da cultura e dos negócios locais. No Brasil, há muitos chineses em São Paulo, mas poucos em outras cidades.Com 1,4 bilhão de habitantes, a maioria dos chineses não sabe quase nada sobre o Brasil.Muitos conhecem apenas os Estados Unidos, porque a mídia chinesa fala muito sobre eles. Mesmo sem nunca terem ido lá, sabem opinar. Por isso, vou à América Latina, ao Sudeste Asiático e à África. Não podemos focar apenas nos Estados Unidos. Precisamos entender melhor os países do Sul Global.

 

E como você acha que o mundo vê a China hoje?
Por causa da pandemia, entre 2020 e 2024, poucos estrangeiros foram à China. O país mudou muito, mas o mundo não percebeu. Agora, quando as pessoas estão voltando a visitar a China, ficam surpresas. A tecnologia, a robótica, a inteligência artificial… tudo é muito avançado. Existe uma grande diferença entre a imagem real da China e a imagem que circula fora. Em 2025, foi o ponto de virada: a imagem da China começou a mudar de negativa para positiva. Ainda é muito cedo. Muitos estrangeiros não sabem o que está acontecendo no país, mas, desde 2025, a percepção geral da China vem melhorando.

 

No Brasil, as informações sobre a China são positivas, impressionam do ponto de vista de tecnologia, cidades futuristas…
Sim, especialmente em comparação com os Estados Unidos e com o que aconteceu nos últimos anos. Antes, a maioria das pessoas conhecia a China apenas pela mídia tradicional, como CNN, BBC e New York Times, que costumavam falar de forma negativa. Agora, com Instagram e TikTok, os vídeos mostram a realidade. Eu mesmo gravo caminhando nas ruas de Xangai. É uma cidade normal, como São Paulo ou Nova York. Não é aquela imagem estereotipada de cidade comunista fechada. As redes sociais ajudaram a mudar isso. É uma nova geração de mídia.

 

“Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos.”

 

Há muitas críticas sobre a mídia chinesa, mas não percebemos o quanto a nossa também é controlada.
Concordo. Há essa crítica de que, na China, a mídia é controlada pelo Estado, que o país é comunista, autoritário, que tudo é propaganda do governo. Mas, em outros países, a mídia é controlada por ideologias.

 

Às vezes, nem é ideologia, é dinheiro mesmo.
Exatamente. Conheci um jornalista estrangeiro de um grande veículo que morava na China. Ele queria escrever textos mais objetivos sobre a realidade Chinesa, mas os editores em Londres recusavam. Diziam que o público europeu e as lideranças não queriam ler coisas positivas sobre a China. Mesmo ele vivendo lá e sabendo da realidade, não podia publicar.

 

Você diz que, se o mundo não entender o crescimento científico da China, vai perder o entendimento do futuro. Mas o que seria importante o mundo entender sobre valores chineses que levaram a essa ascensão? Há pouco, você mencionou a tradição confucionista.
Sim, Confúcio é muito importante, especialmente para os chineses. Sobre os valores, os chineses são conhecidos por trabalhar muito. Na cultura chinesa, sempre acreditamos que, se trabalharmos duro, podemos mudar nossa vida. Esse é um pensamento muito diferente de outros países, onde, às vezes, as pessoas acreditam mais no destino ou no que virá depois. Na China, quando você é jovem, precisa se esforçar ao máximo. Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos. Mesmo vindo de uma família pobre, se você estudar bastante, pode entrar em uma boa universidade, mudar sua condição social e transformar sua vida. Isso vem muito do pensamento de Confúcio: nunca desistir. Eu venho de uma pequena vila no sudoeste da província de Hunan, terra natal do presidente Mao. Fui para Pequim estudar, fundei minha empresa lá, depois me mudei para Xangai e passei a viajar pelo mundo. Sou muito influenciado pela cultura tradicional chinesa: trabalhar duro, ajudar os pais, apoiar a família. Esse é um valor central do confucionismo.

 

Esses são valores que o mundo deveria conhecer melhor?
Com certeza. Quando as pessoas falam da China, normalmente pensam apenas em comunismo e no Partido Comunista. Mas, para nós, isso não é o tema principal. Há mais de dois mil anos, a China valoriza estabilidade e prosperidade. Existe uma ideia histórica de que quando o governo central é forte, o país prospera. Quando não é, há caos. Por isso, muitos chineses acreditam que é positivo ter uma liderança forte. Enquanto estrangeiros veem isso como autoritarismo, os chineses enxergam como algo necessário para manter a estabilidade. Isso mostra como os valores são diferentes em cada país.

 

Você percebe semelhanças entre a China e a América Latina?
Sim. Estive viajando recentemente pela América Latina e percebi que as pessoas também valorizam muito a família.Aqui, assim como na China, as pessoas querem melhorar a vida dos pais e garantir um futuro melhor para os filhos. Trabalhamos duro pensando na próxima geração.No México, vi pessoas que trabalham muito e se dedicam à família. Existem muitas semelhanças culturais.

Você diz que sua missão para os próximos 20 anos é conectar a China com o mundo. Poderia contar um pouco sobre a decisão que te levou a essa missão e sua trajetória até aqui?
Nos últimos 20 anos, meu trabalho tem sido conectar pessoas dentro da China. Agora, tenho conectado empreendedores chineses com empreendedores estrangeiros. Como chinês, acredito muito que, nos próximos anos, a China vai se tornar a principal potência global. Algumas pessoas dizem que isso já aconteceu, mas acho que ainda precisamos de mais tempo. E eu não quero que a China seja uma superpotência que interfere nos outros países. Quero que seja uma potência que construa boas relações, especialmente com os países do Sul Global. A geração anterior, como Jack Ma ou Richard Liu, construiu grandes empresas do zero. A minha geração tem a missão de conectar a China ao mundo. Somos mais globalizados. Queremos contribuir mais com outros países. Conheço muitos jovens empreendedores chineses, muito ambiciosos, com visão global. Eles querem criar marcas reconhecidas mundialmente. Eu me vejo mais como alguém que conecta a China culturalmente com outros países. Somos diferentes, mas temos a mesma visão: tornar a China melhor e contribuir mais com o mundo.

 

O mundo hoje quer ver a China de perto, e você é um chinês que está sempre indo ver o mundo. Qual a sua percepção sobre ele e sobre como o mundo vê a China?
Nos últimos três anos, visitei mais de 60 países. Fui a Bangladesh, Iraque, Nigéria, Quênia, Brasil, Chile, México, Argentina, Uzbequistão, Cazaquistão, entre muitos outros.Tradicionalmente, os chineses não gostam muito de sair do país. Na nossa cultura, existe um ditado: 父母在不远游 (fù mǔ zài, bù yuǎn yóu), que significa de uma forma mais contextualizada: “Se seus pais ainda estão vivos, você não deve morar ou viajar para muito longe deles.” Na tradição confucionista, os filhos têm a responsabilidade de permanecer próximos dos pais para poder cuidar deles, especialmente na velhice.Quando somos jovens, nossos pais cuidam de nós. Quando eles envelhecem, nós cuidamos deles. Por isso, culturalmente, não é comum sair para morar longe, especialmente no exterior.Além disso, a China é muito grande, com um mercado enorme. É como o Brasil: não é preciso sair do país para encontrar oportunidades. Cada província chinesa é como um país.

 

Mas estão viajando mais, não?
Depois da pandemia, desde 2022 e 2023, começou uma nova onda de empresas chinesas indo para o exterior. Ainda estamos em um estágio inicial.A maioria dos chineses sabe pouco sobre outros países. Mesmo tendo uma visão internacional, conhecemos pouco da cultura e dos negócios locais. No Brasil, há muitos chineses em São Paulo, mas poucos em outras cidades.Com 1,4 bilhão de habitantes, a maioria dos chineses não sabe quase nada sobre o Brasil.Muitos conhecem apenas os Estados Unidos, porque a mídia chinesa fala muito sobre eles. Mesmo sem nunca terem ido lá, sabem opinar. Por isso, vou à América Latina, ao Sudeste Asiático e à África. Não podemos focar apenas nos Estados Unidos. Precisamos entender melhor os países do Sul Global.

 

E como você acha que o mundo vê a China hoje?
Por causa da pandemia, entre 2020 e 2024, poucos estrangeiros foram à China. O país mudou muito, mas o mundo não percebeu. Agora, quando as pessoas estão voltando a visitar a China, ficam surpresas. A tecnologia, a robótica, a inteligência artificial… tudo é muito avançado. Existe uma grande diferença entre a imagem real da China e a imagem que circula fora. Em 2025, foi o ponto de virada: a imagem da China começou a mudar de negativa para positiva. Ainda é muito cedo. Muitos estrangeiros não sabem o que está acontecendo no país, mas, desde 2025, a percepção geral da China vem melhorando.

 

No Brasil, as informações sobre a China são positivas, impressionam do ponto de vista de tecnologia, cidades futuristas…
Sim, especialmente em comparação com os Estados Unidos e com o que aconteceu nos últimos anos. Antes, a maioria das pessoas conhecia a China apenas pela mídia tradicional, como CNN, BBC e New York Times, que costumavam falar de forma negativa. Agora, com Instagram e TikTok, os vídeos mostram a realidade. Eu mesmo gravo caminhando nas ruas de Xangai. É uma cidade normal, como São Paulo ou Nova York. Não é aquela imagem estereotipada de cidade comunista fechada. As redes sociais ajudaram a mudar isso. É uma nova geração de mídia.

 

“Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos.”

 

Há muitas críticas sobre a mídia chinesa, mas não percebemos o quanto a nossa também é controlada.
Concordo. Há essa crítica de que, na China, a mídia é controlada pelo Estado, que o país é comunista, autoritário, que tudo é propaganda do governo. Mas, em outros países, a mídia é controlada por ideologias.

 

Às vezes, nem é ideologia, é dinheiro mesmo.
Exatamente. Conheci um jornalista estrangeiro de um grande veículo que morava na China. Ele queria escrever textos mais objetivos sobre a realidade Chinesa, mas os editores em Londres recusavam. Diziam que o público europeu e as lideranças não queriam ler coisas positivas sobre a China. Mesmo ele vivendo lá e sabendo da realidade, não podia publicar.

 

Você diz que, se o mundo não entender o crescimento científico da China, vai perder o entendimento do futuro. Mas o que seria importante o mundo entender sobre valores chineses que levaram a essa ascensão? Há pouco, você mencionou a tradição confucionista.
Sim, Confúcio é muito importante, especialmente para os chineses. Sobre os valores, os chineses são conhecidos por trabalhar muito. Na cultura chinesa, sempre acreditamos que, se trabalharmos duro, podemos mudar nossa vida. Esse é um pensamento muito diferente de outros países, onde, às vezes, as pessoas acreditam mais no destino ou no que virá depois. Na China, quando você é jovem, precisa se esforçar ao máximo. Não acreditamos muito em sorte ou destino; acreditamos que podemos lutar pelo que queremos. Mesmo vindo de uma família pobre, se você estudar bastante, pode entrar em uma boa universidade, mudar sua condição social e transformar sua vida. Isso vem muito do pensamento de Confúcio: nunca desistir. Eu venho de uma pequena vila no sudoeste da província de Hunan, terra natal do presidente Mao. Fui para Pequim estudar, fundei minha empresa lá, depois me mudei para Xangai e passei a viajar pelo mundo. Sou muito influenciado pela cultura tradicional chinesa: trabalhar duro, ajudar os pais, apoiar a família. Esse é um valor central do confucionismo.

 

Esses são valores que o mundo deveria conhecer melhor?
Com certeza. Quando as pessoas falam da China, normalmente pensam apenas em comunismo e no Partido Comunista. Mas, para nós, isso não é o tema principal. Há mais de dois mil anos, a China valoriza estabilidade e prosperidade. Existe uma ideia histórica de que quando o governo central é forte, o país prospera. Quando não é, há caos. Por isso, muitos chineses acreditam que é positivo ter uma liderança forte. Enquanto estrangeiros veem isso como autoritarismo, os chineses enxergam como algo necessário para manter a estabilidade. Isso mostra como os valores são diferentes em cada país.

 

Você percebe semelhanças entre a China e a América Latina?
Sim. Estive viajando recentemente pela América Latina e percebi que as pessoas também valorizam muito a família.Aqui, assim como na China, as pessoas querem melhorar a vida dos pais e garantir um futuro melhor para os filhos. Trabalhamos duro pensando na próxima geração.No México, vi pessoas que trabalham muito e se dedicam à família. Existem muitas semelhanças culturais.

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