As imagens sintetizam, de forma quase didática, uma das transformações mais impressionantes da economia global nas últimas três décadas: a mudança estrutural do Vietnã de uma economia primário-exportadora para uma potência manufatureira e tecnológica. Em 1995, o país ainda exibia um padrão típico de especialização em produtos de baixa complexidade, com forte presença de commodities agrícolas e recursos naturais. Em 2024, o quadro é radicalmente distinto: eletrônicos, máquinas e cadeias industriais sofisticadas dominam a pauta exportadora.
Em 1995, o Vietnã exportava cerca de US$ 5 bilhões, com destaque para café, arroz e petróleo. A estrutura produtiva era concentrada, pouco diversificada e intensiva em recursos naturais e mão de obra pouco qualificada. Esse padrão é familiar a muitos países latino-americanos, historicamente presos em trajetórias de especialização em bens primários, com baixa incorporação tecnológica e limitada capacidade de aprendizado produtivo.
O que essas imagens revelam não é apenas uma mudança de composição das exportações, mas uma transformação profunda nas capacidades produtivas do país. A transição de commodities para manufaturas complexas implica a construção de competências industriais, logísticas e tecnológicas que não surgem espontaneamente – são resultado de estratégia, coordenação e política econômica.
O país se tornou um hub relevante de manufatura na Ásia
Já em 2024, o Vietnã exporta mais de US$ 450 bilhões, um salto de quase 100 vezes em valor nominal. Mais importante do que o volume é a qualidade dessa expansão: produtos como eletrônicos, computadores, equipamentos de telecomunicações e componentes industriais passaram a ocupar o centro da pauta exportadora. Trata-se de setores com alto conteúdo tecnológico e fortes encadeamentos produtivos.
Essa mudança está diretamente associada à inserção do Vietnã nas cadeias globais de valor. O país se tornou um hub relevante de manufatura na Ásia, atraindo investimento estrangeiro direto, especialmente de empresas multinacionais do setor eletrônico. Gigantes como Samsung, Intel e Foxconn passaram a operar no país, transformando sua estrutura produtiva e elevando o nível de sofisticação das exportações.
Mas essa inserção não foi passiva. O Vietnã adotou uma estratégia deliberada de desenvolvimento, combinando abertura comercial com políticas industriais ativas. Zonas econômicas especiais, incentivos fiscais, investimento em educação básica e técnica e estabilidade macroeconômica criaram um ambiente propício para a industrialização acelerada.
Outro elemento crucial foi o papel do Estado na coordenação desse processo. Longe de uma visão de laissez-faire, o governo vietnamita atuou como indutor do desenvolvimento, orientando investimentos, negociando acordos comerciais e criando condições para a transferência de tecnologia. Trata-se de um caso clássico de Estado desenvolvimentista adaptado ao contexto da globalização.
Do ponto de vista da complexidade econômica, essa transformação é inequívoca. A diversificação da pauta exportadora e o avanço em setores mais sofisticados elevam o nível de conhecimento produtivo incorporado na economia. Isso, por sua vez, amplia o espaço de crescimento sustentado no longo prazo, reduzindo a dependência de ciclos de commodities.
O Vietnã mostra que é possível escapar da armadilha dos recursos naturais
O contraste com a América Latina é inevitável. Enquanto o Vietnã avançou na escada da complexidade, muitos países latino-americanos permaneceram – ou retornaram – a padrões de especialização baseados em recursos naturais. O resultado é uma divergência crescente em termos de renda, produtividade e dinamismo econômico.
Em última instância, as imagens contam uma história sobre escolhas. O Vietnã mostra que é possível escapar da armadilha dos recursos naturais e construir uma trajetória de desenvolvimento baseada em aprendizado, diversificação e sofisticação produtiva. Não se trata de um milagre, mas de estratégia, persistência e coordenação institucional ao longo do tempo.