Valter Peixoto nasceu em Santos, São Paulo, cidade onde o maior porto da América Latina aproxima o Brasil do mundo todos os dias. Nesse ambiente, marcado pela circulação de mercadorias e pelo encontro entre diferentes países, ele iniciou uma trajetória profissional.
Especialista em comércio exterior, com pós-graduação em relações internacionais e uma veia de comunicador, Valter encontrou no podcast Mente Mundo uma forma de transformar curiosidade, pesquisa e análise em conteúdo acessível. Seu olhar se voltou para o Sudeste Asiático, mas nesta entrevista ele fala especificamente do Vietnã, país muitas vezes ainda visto pelo imaginário ocidental a partir da guerra e das narrativas de Hollywood.
Para ele, no entanto, o Vietnã precisa entrar no radar dos brasileiros como exemplo de desenvolvimento, estratégia, resiliência histórica e pragmatismo econômico, como conta a seguir.
Você nasceu em Santos, cidade marcada por um dos maiores portos do Brasil. De que forma esse ambiente influenciou sua curiosidade por comércio exterior e, depois, por relações internacionais?
Na verdade, o início foi por acaso. Tenho um padrinho que tem uma empresa de comércio exterior e precisava de alguém de confiança para trabalhar no Sul do Brasil. Com 18, 19 anos, eu já conhecia a região, principalmente Curitiba. Trabalhei um ano e pouco com ele, gostei da área, mas acabei indo para publicidade e propaganda. Passei por edição de vídeos, mas senti necessidade de voltar para o comércio exterior. Tendo o Porto de Santos aqui, é uma área mais estável, com mais empregos e possibilidades. Voltei por volta dos 23, 24 anos, fiz faculdade de comércio exterior e consegui o emprego em que estou até hoje, em uma corretora de câmbio. Não é uma empresa portuária, mas está no setor. Nossos principais clientes são empresas de navegação e de fornecimento para navios.
Isso também foi o que o levou a estudar relações internacionais?
Do meio para o final da faculdade de comércio exterior, eu brinco que me achei. Comecei a estudar por interesse, e não apenas para conseguir emprego. Nas aulas de geopolítica, blocos econômicos e moeda, eu me encontrei. Depois, fiz pós-graduação na Unisinos, uma das melhores faculdades privadas do Brasil na área. Foi um ano e meio de estudos intensos. Eu me apaixonei pelo tema, mas achei difícil mudar de área naquele momento. Então, me estabeleci na empresa em que estou até hoje, mas continuei estudando. Isso foi por volta de 2015, 2016.
Em que momento o Sudeste Asiático se tornou seu objeto de interesse, a ponto de inspirar a criação de um podcast?
Em 2019, conheci projetos online de relações internacionais e achei que poderia fazer algo semelhante, como um podcast. Lembrei das aulas de blocos econômicos e de como o Sudeste Asiático crescia acima da média mundial havia muito tempo, embora não estivesse no radar direto do brasileiro.
Começou assim o podcast Mente Mundo?
Quando criei esse nome, tudo ainda era embrionário. Eu pensava em falar de ciências sociais em geral. Sou curioso sobre o tema, além de filosofia e comunicação. A ideia inicial era tratar de relações internacionais, mas abordando outras áreas também.
E aí veio o interesse pelo Vietnã…
O Vietnã surgiu desse interesse em falar de temas e regiões que não estavam muito no radar direto do brasileiro.
Mas o que o encantou a ponto de você fazer um especial em 2025 sobre os 50 anos da Guerra do Vietnã?
Desde o começo, eu sabia que, se fosse falar da Guerra do Vietnã, precisaria fazer algo diferente. É um assunto que muita gente conhece de alguma forma, talvez o único da região presente no imaginário popular. Quando vi a data dos 50 anos do fim da guerra, planejei uma série para sair do viés hollywoodiano ou do Rambo que sai matando todo mundo e busquei trazer mais o lado vietnamita, o lado mais asiático. E para ficar diferente, relembrando a época de publicidade, propaganda, eu quis fazer como uma contação de história. Narro os acontecimentos ano a ano e convidei amigos, professores e pessoas com projetos semelhantes ao meu para serem as vozes dos personagens. Falo de figuras como Ho Chi Minh e o general Vo Nguyen Giap, grande responsável militar pela vitória, e usei músicas da época como fundo.
E muitos especialistas, não é?
Chamei o amigo Danilo Briscese Martinez, professor da Faculdade de Psicologia da Unimonte aqui de Santos, para falar sobre traumas de guerra; Dawisson Elvécio Belém Lopes, um dos grandes professores de política internacional e comparada da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais); e o comandante Robinson Farinazzo, do canal Arte da Guerra, para explicar o conceito militar da guerra, que também mudou depois do Vietnã. Foram cinco episódios de pouco mais de uma hora. Deu um trabalho imenso, mas acho que o resultado ficou satisfatório.
Por que olhar para a presença colonial francesa antes de falar diretamente do envolvimento dos Estados Unidos?
No imaginário coletivo, talvez as pessoas tenham apenas os Estados Unidos como referência. Mas, quando os japoneses saem do Vietnã, em 1945, e Ho Chi Minh declara independência, muita coisa já havia acontecido. Os franceses quiseram retomar suas posses coloniais em várias partes do mundo. Por isso, era importante falar da luta anticolonial. O Vietnã simboliza essa luta e lembra que foram os europeus que levaram a guerra de volta ao país. De certa forma, os Estados Unidos estiveram ali desde o começo, porque armaram e financiaram os franceses. Quando a França saiu da guerra, os americanos já bancavam cerca de 80% dos gastos franceses. Quem financiava a guerra eram os Estados Unidos, mas os “caixões” eram franceses. Quando os franceses saem, os americanos mandam seus soldados.
Mas os Estados Unidos também financiaram vietnamitas, certo?
Quando foram criados o Vietnã do Sul e o Vietnã do Norte, os Estados Unidos passaram a financiar o Sul. O Vietnã comunista que conhecemos era a parte norte, com o país dividido em dois, mais ou menos como a Coreia hoje. Só que os vietnamitas não aceitaram permanecer como uma nação dividida. Alguns documentários mostram que no Sul foi criada uma economia artificial, sustentada por muitos dólares. Não era que o Vietnã do Sul fosse rico ou produzisse o suficiente para ter uma economia pujante.
“O que eles (Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap) fizeram no Vietnã, um país pequeno e agrário, poucas vezes se vê na história.”
Você mencionou a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Seu podcast impressiona ao explicitar a influência estrangeira na separação de um só povo.
De certa forma, é por isso que o Vietnã se tornou um símbolo tão forte de luta de libertação nacional e permanece assim até hoje. O Afeganistão tem o slogan de ser o “cemitério de impérios”, porque venceu os Estados Unidos e os soviéticos. Mas eu digo que esse título pertence, na verdade, ao Vietnã. Além de ter expulsado os chineses no passado, em um período recente, de cerca de 40 anos, o país expulsou os franceses, os japoneses, novamente os franceses e os americanos. Para mim, o verdadeiro cemitério de impérios é o Vietnã. Também é preciso reforçar que europeus e Estados Unidos, depois da Segunda Guerra, exportavam valores como democracia e direitos humanos, enquanto tentavam manter ou retomar projetos coloniais. Exportavam a ideia de igualdade para todos, mas, na prática, a realidade era outra.
O que podemos aprender com a figura histórica de Ho Chi Minh, de quem você fala tanto no podcast?
A luta do Vietnã foi tão marcante que virou quase um adjetivo. Quando alguém invade um país e não consegue vencer, dizem: “isso aqui é um Vietnã”. Ho Chi Minh e o general Vo Nguyen Giap, se não fossem comunistas e se não representassem vitórias comunistas, estariam em inúmeros filmes, séries e documentários. Aprenderíamos sobre a vida deles na escola, porque o que eles fizeram no Vietnã, um país pequeno e agrário, poucas vezes se vê na história.
“O Vietnã, por todos os motivos que já mencionei, deveria ser muito mais discutido em escolas, livros, filmes e séries.”
Poderia descrever a importância de Ho Chi Minh?
Ho Chi Minh era uma figura única. Ele saiu escondido do Vietnã, porque os franceses proibiam os vietnamitas de deixar o país e de se alfabetizar. Movido pelo desejo de conhecer outras culturas, entrou em um navio e rodou o mundo. Esteve no Rio de Janeiro e morou em Santa Teresa durante a Revolta da Chibata. Nessas andanças, conheceu o comunismo, esteve na China, na União Soviética, passou pela França e se tornou uma figura emblemática, com o único objetivo de libertar o povo vietnamita. Em 1946, quando os franceses voltaram ao Vietnã, ele foi negociar em Paris e percebeu que não funcionaria. Como já tinha morado lá e falava francês, saiu da reunião sabendo que os franceses voltariam a atacar seu país. “Vocês podem matar dez de nós, enquanto nós matamos só um de vocês, mas, no final, vocês é que estarão cansados”, disse ele.
A guerra de guerrilha que você menciona…
Ele sabia o que aconteceria com os franceses e depois com os americanos, e também o que precisava fazer: uma guerra de guerrilha, de cansaço, de atrito, de atacar e se esconder na selva. Era uma mente política que enxergava muito longe. Outro exemplo pouco conhecido se refere ao Mar do Sul da China. A China reivindicava os chamados 11 traços, que pegavam todo o litoral do Vietnã. Ao conversar com Mao Tsé-Tung, Ho Chi Minh conseguiu retirar dois traços, e a China deixou de reivindicar todo o território marítimo vietnamita. Se hoje são nove traços e o conflito entre Vietnã e China no Mar do Sul da China é menor do que poderia ser, isso se deve à habilidade política de Ho Chi Minh. Seus escritos circularam por países que lutavam por independência, e ele se tornou uma figura ímpar do século XX.
Qual é a sua percepção sobre o ensino da história da Ásia?
Na minha época, cerca de 30 anos atrás, o estudo da Ásia era muito limitado. Hoje ainda é defasado, mas começa a melhorar, porque a Ásia é “incontornável”, como muitos dizem: é o século asiático. O Vietnã, por todos os motivos que já mencionei, deveria ser muito mais discutido em escolas, livros, filmes e séries. Foi por isso que fiz o podcast, ano a ano, para ajudar a entender os massacres cometidos contra o Vietnã, e não apenas pelos Estados Unidos. Sabemos muito sobre o que os alemães fizeram durante a Segunda Guerra, mas pouco sobre as atrocidades cometidas pelos japoneses contra populações do Sudeste Asiático e da China. Não à toa, até hoje as relações entre China e Japão, e Coreia e Japão, são estremecidas. Mesmo nas universidades de relações internacionais, ainda há poucas disciplinas sobre a Ásia, embora algumas das maiores economias do mundo estejam lá. Infelizmente, ainda existe uma grande defasagem.
“O Brasil tem muito a aprender com o Vietnã”
Diante do crescimento das relações entre o Brasil e os países asiáticos, o que podemos aprender e aproveitar melhor dessa aproximação?
Para se ter uma ideia, em 1988, o Vietnã figurava entre os dez países mais pobres do mundo. Em 1989, alcançou a autossuficiência na produção de arroz, um marco que comemora até hoje, e atualmente está entre os maiores exportadores do mundo. E 1989 é praticamente “ontem”, não é? Hoje, o Vietnã exporta em volume e também em qualidade industrial. Exporta mais que o Brasil em determinados segmentos e com produtos mais industrializados, sendo que, até pouco tempo atrás, era um país pobre e basicamente rural. É por essa importância econômica que estou preparando um curso sobre tudo o que sei a respeito do Vietnã, sem me prender ao tempo de um podcast ou a uma lista fechada de temas. A ideia é mostrar o feito vietnamita e explicar, em detalhes, a política e a economia do país. A importância do Brasil para o Vietnã também só tem crescido. No fim de 2024, o Vietnã aprofundou a parceria estratégica com o Brasil e falou abertamente sobre o interesse em um acordo comercial com o Mercosul. Ou seja, eles sabem que precisam diversificar suas parcerias econômicas e já deixaram claro que estão olhando para o Brasil.
E o Brasil também está mais aberto para isso…
Eu acho que, de uns dois ou três anos para cá, o Brasil acordou para a necessidade de ampliar suas relações na Ásia para além da China. Singapura já aparece há alguns anos entre os dez países para os quais o Brasil mais exporta e firmou um acordo de livre comércio com o Mercosul. Outros países do Sudeste Asiático também vêm crescendo muito. O Vietnã tem esse mesmo interesse, e a Indonésia também. Então, o Brasil precisa olhar para outros países asiáticos para diversificar suas relações e não depender de um único parceiro. O Brasil tem muito a aprender com o Vietnã: a escala industrial construída em tão pouco tempo, a capacidade de diversificação e a disposição para fazer comércio com diferentes países, independentemente de ideologia, são lições importantes. Além disso, o mercado consumidor do Sudeste Asiático está crescendo. A classe média vietnamita e da região quer consumir cada vez mais, e isso abre oportunidades para produtos brasileiros. Talvez o Brasil precise, com apoio de parceiros como a China, encontrar uma saída mais competitiva para o Pacífico, para que nossos produtos cheguem à Ásia sem precisar dar toda essa volta pelo Atlântico. O Vietnã oferece muitas lições sobre desenvolvimento, estratégia, pragmatismo econômico e inserção internacional. Quanto mais entendermos essa trajetória, mais preparados estaremos para aproveitar essa aproximação com a Ásia de forma inteligente, produtiva e positiva para o Brasil.