A pergunta do título é um convite à reflexão sobre a identidade do brasileiro. A ciência, por meio da genética, já comprovou que o Homo sapiens sapiens, a espécie humana que conhecemos hoje, surgiu na África, de onde se espalhou pelo mundo, cruzando, em sua trajetória, com outras espécies, como os neandertais na Europa e, em partes da Ásia, com grupos como os denisovanos.
No caso das Américas, estudos indicam que os povos originários descendem diretamente de populações vindas da Ásia há milhares de anos. Por isso, falar da pré-história do Brasil é também reconhecer uma conexão profunda com o continente asiático.
Nesta entrevista, Pedro Paulo Funari, historiador, antropólogo, arqueólogo, professor da Unicamp e autor de livros como “Pré-história do Brasil”, da Editora Contexto, ajuda a ampliar esse olhar. Mais do que revisitar o passado, a conversa lembra que o Brasil não começou em 1500 e que conhecer a história, os saberes, as línguas, a arte e a cultura dos povos indígenas é essencial para contar quem são os brasileiros, de fato, com mais justiça, respeito e verdade.
Ao que precisamos estar mais atentos para evitar equívocos e preconceitos sobre a pré-história e os povos indígenas?
A questão principal, com relação à pré-história e aos povos indígenas, fundamentais para a formação das sociedades americanas, é que eles ainda são pouco conhecidos. Durante séculos, houve uma caracterização dos indígenas como preguiçosos, como se não tivessem cultura. Isso acabou alimentando preconceitos e até medo.
E como isso se reverte?
É necessário que isso chegue ao ensino formal. A maneira mais segura de ter informação é na escola. Livros didáticos, material paradidático e projetos em sala de aula são fundamentais. Boa parte da população brasileira tem antepassados indígenas. Pesquisas genéticas indicam que a ancestralidade feminina brasileira é composta de indígenas e africanos, enquanto a masculina é predominantemente europeia. Isso mostra uma forte presença genética. Há também uma presença cultural: costumes de origem indígena na alimentação, com produtos como milho e batata, na maneira de processar alimentos, como a tapioca, e no uso de redes para dormir ou para lazer. Em muitas famílias, há a história de uma avó indígena “caçada a laço”. Isso concretiza o que a genética mostra: houve mescla entre homens europeus e mulheres com traços indígenas da população local. Por isso, cabe à escola e aos livros levar essas informações, principalmente às crianças, que são promotoras do conhecimento.
Por que esse tema quase não aparecia na formação escolar? Havia preconceito em relação aos indígenas e à nossa pré-história?
Sim, exatamente isso. Historicamente, os indígenas foram vistos como fatores de contenção da expansão. No período colonial português, os colonizadores foram para o interior, para o sertão em busca de pedras especiais, ouro e outros recursos. Os indígenas tinham uma função ambígua: por um lado, eram parte da própria formação da população; por outro, eram perseguidos. Os bandeirantes falavam tupi-guarani até mais ou menos 1750, quando o Marquês de Pombal proibiu o uso do tupi-guarani. A própria população brasileira era muito mesclada com os indígenas. Porém, esses mesmos bandeirantes caçavam indígenas e os vendiam como escravos. Há uma relação contraditória: somos parte dessa cultura, mas temos medo dos indígenas. Outro aspecto é a questão do trabalho. A escravização do indígena e do africano fazia dessas populações a base da sociedade. Mas o indígena conhecia a terra e podia fugir com mais facilidade. Daí vem a ideia de que ele “não queria trabalhar”. Na aldeia indígena há outra concepção de mundo. É preciso fazer a roça, pescar, realizar festas, cantos, rituais e até a guerra, mas não há a mesma noção de trabalho e acúmulo. Eles trabalham, produzem, fazem tudo, mas não precisam acumular. Isso contribuiu para uma imagem negativa do indígena, até em expressões como “programa de índio”. Para combater isso, é preciso uma educação mais ampla do que apenas ensinar que todos têm de produzir e estar inseridos no mercado de trabalho.
Existe muita pesquisa sobre a pré-história do Brasil, mas ainda pouca popularização desse conhecimento.
Existe muita pesquisa, principalmente a partir do século XX e, sobretudo, nas últimas décadas. Há muitos estudos arqueológicos e antropológicos sobre esses ancestrais. Mas esse conhecimento ainda é pouco popularizado. Muitos trabalhos são voltados para os pares, para pessoas que já são estudiosas, não para o grande público. O trabalho da arqueóloga Niéde Guidon (falecida em 2025) que há décadas estudou o passado brasileiro e Luzia (o esqueleto mais antigo encontrado nas Américas) são dois exemplos que chegaram ao grande público por meio dos livros didáticos, da televisão, dos meios de comunicação e das redes sociais. Todo mundo fala das suas datações de 50 mil anos, nas pinturas rupestres do Nordeste (ela foi a fundadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí) e em Luzia (fóssil encontrado em Lagoa Santa, em Minas Gerais). Isso mostra a importância de popularizar a pesquisa.
Qual é a importância de Luzia e do trabalho de Niéde Guidon?
No caso de Luzia, o fato de ter sido datada de mais de 10 mil anos demonstra que a ocupação da América do Sul é antiga. Há um problema de conservação de esqueletos no solo da América do Sul, porque é muito ácido. No caso dela, o esqueleto se conservou e pôde ser datado. Niéde Guidon fez datações muito antigas, de 50 mil, 70 mil anos. O problema é que não são restos humanos, mas restos de fogueira e artefatos de pedra associados ao carvão. A controvérsia é se essas fogueiras são humanas ou naturais e se algumas pedras são realmente artefatos. Eu acho que ainda não está totalmente garantido que tenhamos 50 mil anos. Mas isso não muda o grande mérito de Niéde: ela foi estudar lá e mostrou que, milhares de anos atrás, esses indígenas faziam arte, tinham uma comunicação sofisticada. As pinturas rupestres mostram pessoas, animais, cenas de caça, festa… Isso vai contra o preconceito de que os indígenas teriam uma cultura simples. Eles também produzem cultura sofisticada.
“Todos os nativos do continente americano são oriundos da Ásia, isso com certeza.”
As datações mais antigas da presença humana na América ainda são discutidas?
Sim. As evidências apresentadas por Niéde Guidon, desde as décadas de 1970 e 1980, são associadas ao carvão, e fica a dúvida se esse carvão teria sido sempre produzido pelo homem. Nem todos aceitam. Há também um aspecto político. Nos Estados Unidos, o sítio de Clóvis, com pouco mais de 10 mil anos, foi apresentado durante muito tempo como o mais antigo fóssil americano. A narrativa era a de que os asiáticos vieram pelo Estreito de Bering (faixa marítima que separa a Sibéria, na Rússia, do Alasca, nos Estados Unidos) e se espalharam de norte a sul. Quando Niéde fala em 50 mil anos, isso desestabiliza esse discurso. Tom Dillehay encontrou, no Chile, um sítio com 23 mil anos, e ainda há críticas a essa datação. Isso mostra que há disputa científica, mas também política. Como grande potência mundial, os Estados Unidos tendem a dominar o discurso científico. Há ainda a hipótese de migração pelo Pacífico, que Niéde propunha poder ter ocorrido muito antes, porque, com a glaciação, o nível do Pacífico era mais baixo e havia mais ilhas. Novos dados podem ajudar a esclarecer.
A genética ajuda a explicar a relação entre os povos do continente americano e a Ásia?
Por meio da análise genética, é possível saber que todos os povos nativos do continente americano que puderam ser analisados têm origem na Ásia, no nordeste asiático, na região próxima ao atual Estreito de Bering, na Sibéria. E também de populações mais ao sul da Ásia, que não viviam na região da Sibéria, mas que passaram por ali. Todos os nativos do continente americano são oriundos da Ásia, isso com certeza. Ao mesmo tempo, todos viemos da África. O Homo sapiens tem origem única, africana. Não existe origem separada: europeu na Europa, asiático na Ásia. As características físicas surgiram nos últimos milhares de anos, em contato prolongado com o ambiente, e não revelam origens humanas separadas. No século XIX, a ideia de poligenia, de que os homens teriam vindo de raças separadas, foi usada para justificar a escravização de africanos, como se não fossem plenamente humanos. Hoje, ninguém aceita isso. A comprovação genética indica que nossa espécie surge na África e depois se dissemina.
Luzia indicaria a presença de povos diferentes convivendo na América do Sul?
Houve uma mudança nessa discussão. Walter Neves, que fez o primeiro estudo de Luzia, analisou a métrica dos crânios e propôs que ela pertenceria a uma população mais próxima da africana do que da indígena. Depois, André Strauss, aluno dele e hoje também professor da USP (Universidade de São Paulo), fez uma pesquisa genética. A análise genética de Luzia mostra que ela é indígena também, embora o formato da cabeça pudesse parecer mais próximo do africano. Eu tendo a concordar com essa visão mais recente. Não há muitos exemplos na história de um povo que destrói o outro sem mistura. Se houvesse africanos junto com asiáticos aqui há 10 mil anos, teria que sobrar genes africanos na população indígena, assim como sabemos que parte dos genes europeus é neandertal porque houve cruzamento com o mundo neandertal. Mas toda ciência está sujeita a revisões. No momento, a genética está com muita força, e essa é a visão predominante.
Dando um pulo para a linguística, é um equívoco repetirmos que, no Brasil, só falamos uma língua, não?
Sim. No Brasil, podemos fazer uma analogia com a China e a Índia, onde existem centenas de línguas. Aqui também: calculam-se 900 línguas no Brasil. A diferença é que, na Índia e na China, muitas línguas são escritas ou podem ser conhecidas pela escrita. No caso das línguas indígenas, exceto aquelas estudadas por antropólogos, não há registro escrito. Mas há indígenas vivos e por eles sabemos que ainda existem centenas de línguas. Essas línguas, tanto no Brasil quanto na China e na Índia, sofrem muito com a ameaça de extinção. Com o desenvolvimento das comunicações, todo mundo precisa de uma língua de comunicação. O português é uma língua de comunicação, assim como o mandarim, na China. O problema é quando a língua materna é substituída pela língua de comunicação. Isso ocorre por imposição do Estado, mas também por um fator difícil de controlar, a pressão social. Muitas vezes, para ter mais oportunidades, evitar discriminação e se integrar melhor à sociedade, as próprias pessoas deixam de falar sua língua materna e passam a adotar a língua de comunicação dominante.
Por que não estudamos tupi ou guarani, mesmo quando essas línguas fazem parte da nossa formação?
O tupi, a língua geral, também conhecida como nheengatu, foi falado até meados do século XIX em São Paulo e regiões como Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Amazônia. Era uma língua de comunicação, o “inglês da época”, porque havia indígenas de diferentes etnias. Muitos dos nossos topônimos são tupi: Araraquara, Itaúna, Itaoca e tantos outros. A própria população falante de tupi nomeava os lugares. Estudar tupi ou guarani daria um conhecimento de nós mesmos. Como é possível termos tantos topônimos e não sabermos o que significam? No Brasil, o tupi foi deixado de lado por causa da intervenção do Marquês de Pombal, que impôs o português como língua dominante. Isso foi domínio colonial. Na costa, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Vicente, falava-se português. Mas, no interior, passando 100 ou 150 quilômetros, falava-se tupi. A proibição não funcionou de uma vez, mas foi uma opressão.
O Brasil poderia transformar suas raízes indígenas e pré-históricas em valor cultural, turístico e econômico…
Isso aparece na questão do turismo cultural. As pessoas se movimentam para conhecer e conviver com o diferente, em oposição ao “não-lugar”. Marc Augé criou o conceito de não-lugar: um espaço que pode estar na Bahia, no Mediterrâneo ou na Tailândia, mas que é igual nos aspectos gerais. A Disneylândia existe em Paris, Tóquio e na China. Você está indo para um lugar que já conhece, como um aeroporto ou shopping center. No turismo cultural, o sentido é outro. Ir à Serra da Capivara, no Piauí, significa ter contato com as pinturas rupestres, com o museu, com a população local e com uma cerâmica inspirada na configuração pré-histórica. Cada sítio arqueológico tem características próprias. No caso da arqueologia e da pré-história, muito pouco é explorado. Falta conhecimento, meios de chegar, estrutura de acolhimento e até custo. Muitas vezes, uma passagem de São Paulo para o Piauí custa o mesmo que uma passagem para Miami, nos Estados Unidos. Niéde Guidon lutou muito para construir um aeroporto perto do Parque da Serra da Capivara, mas tudo isso ainda é um desafio por lá.
Os indígenas atuais no Brasil têm consciência dessa origem asiática?
No caso dos meus alunos indígenas de História, eles estudam esse tema. Mas, no geral, não. A concepção de história é muitas vezes religiosa ou mitológica. Eles têm histórias de criação, mas essas histórias não chegam à Ásia, porque mito não tem Ásia nesse sentido. Existem, porém, histórias mitológicas semelhantes na Ásia e na América, como a ideia de seres humanos que surgem debaixo da terra. Também há o xamanismo. O animismo, a ideia de que todas as coisas têm alma – árvore, montanha, rio – existe na Ásia e aqui. A palavra xamã designa o curandeiro em transe em contato com outro mundo, é uma palavra de origem siberiana. O animismo, sozinho, não prova ligação, porque também aparece na África e na Europa. Mas a presença do xamã e algumas narrativas semelhantes sugerem aproximações. Ainda assim, o argumento principal é genético: os nativos americanos vieram da Ásia. A questão é saber que outras bagagens trouxeram.
“O mais importante é ampliar o conhecimento sobre esse imenso mundo asiático, com sua história, cultura e religiões.”
Os países sul-americanos têm uma relação diferente com suas heranças indígenas?
Em países como Peru, Equador, Bolívia e parte da Argentina, a população indígena dos Andes produziu muita cultura material, monumentos de pedra e estradas. Os incas, por exemplo, deixaram marcas muito fortes. Essa região preserva mais o idioma e a memória indígena. No Peru, o quéchua (conhecida como a língua do Império Inca) é muito falado. Quando esses Estados nacionais foram criados no século XIX, eles puderam dizer: somos descendentes desses que fizeram grandes coisas no passado. Isso é diferente do Brasil, onde não havia grandes cidades ou impérios no mesmo modelo. Aqui, a questão indígena apareceu no indianismo (movimento literário e artístico), mas não com a mesma força. No Brasil, o domínio cultural dos vencedores foi muito influente. A gente pensa muito na ligação com os portugueses e nem sempre considera a questão indígena. A população é mesclada, mas tem medo. Em trabalhos de campo no Vale do Ribeira, em São Paulo, vi populações locais mescladas com indígenas que não se reconhecem como indígenas e ainda têm medo dessa identidade.
O quanto somos diferentes, ou não, das culturas asiáticas?
É difícil generalizar, porque a Ásia é muito diversa. Índia, China e Japão são muito diferentes entre si. Em alguns pontos, podemos estar mais próximos da Índia do que do Japão: pela festa, pela diversidade, pela música, pelas cores e pela presença da rua. O carnaval da Bahia pode ser comparado a um festival indiano. Já a cultura japonesa é muito mais regrada. O mais importante é ampliar o conhecimento sobre esse imenso mundo asiático, com sua história, cultura e religiões. Falta divulgação no Brasil sobre a Ásia. Temos população japonesa, coreana, chinesa, produtos asiáticos e muita influência cultural. O fundamental é que as pessoas tenham mais informação.
Ao ler seu livro “Pré-História do Brasil” e observar o mapa-múndi sem os filtros geopolíticos habituais, fica a impressão de que as fronteiras entre Ásia, Oriente Médio e Europa são mais artificiais do que se imagina.
Não existe barreira. Essas divisões são artificiais, principalmente no Velho Mundo, formado por África, Europa e Ásia. Esse mundo sempre foi interligado, com circulação de pessoas, plantas, doenças, costumes e ideias. Não há como separar o Oriente Médio da África, nem o Oriente Médio da Pérsia, do Afeganistão, do Paquistão, da Índia e da China. Não é só a Rota da Seda; antes dela já havia ligações. O Oriente Médio está na Ásia. Judaísmo, cristianismo e islamismo são religiões do Oriente Médio. A expressão Oriente Médio, aliás, define-se em relação à Europa. Médio para quem? Para a Europa. Isso também tem a ver com dividir para dominar.