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ENTREVISTAS

Bioenergia como ponte estratégica entre Brasil e China

A combinação entre as vantagens naturais do Brasil e a capacidade científica e tecnológica da China representa, na avaliação do professor Dehua Liu, um caminho concreto para enfrentar as mudanças climáticas. Diretor do Instituto de Química Aplicada do Departamento de Engenharia Química da Universidade Tsinghua e do Centro China-Brasil de Inovação em Tecnologias para Mudanças Climáticas e Energia, o pesquisador esteve no Brasil em julho e destacou a importância de ampliar a cooperação bilateral entre os dois países.

Referência em bioenergia e biorrefinarias, Liu afirma que o Brasil ocupa uma posição de liderança nessa área por reunir biodiversidade, capacidade agrícola e ampla disponibilidade de biomassa. Esses recursos permitem ampliar a produção de biocombustíveis, produtos químicos renováveis e outros materiais de base biológica, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis.

A China, por sua vez, possui conhecimento científico, capacidade industrial e mercado para soluções de baixo carbono. Para o professor, a parceria deve avançar com laboratórios conjuntos, intercâmbios, formação de profissionais e transferência de tecnologia entre empresas e instituições de pesquisa.

Liu observa ainda que o comércio bilateral já é muito ativo entre os dois países e que o intercâmbio entre as populações vem se fortalecendo. Para ele, a próxima etapa da relação Brasil-China deve se concentrar na inovação tecnológica, na formação de talentos e na sinergia industrial. Na entrevista a seguir, ele demonstra como a aproximação entre universidades, empresas e governos pode gerar benefícios para a economia, o meio ambiente e a população dos dois países.

Como suas pesquisas sobre bioenergia e biorrefinarias podem ajudar a enfrentar tanto as mudanças climáticas quanto a crescente demanda mundial por energia?

A essência da biofabricação consiste em utilizar matérias-primas provenientes da biomassa para produzir energia, produtos químicos, combustíveis e outros itens essenciais à sobrevivência humana. A principal causa das atuais emissões de carbono é que, desde a Revolução Industrial, a humanidade extrai continuamente carvão, petróleo e gás natural do subsolo para utilizá-los como combustíveis ou matérias-primas, convertendo-os, ao final, em dióxido de carbono, que é liberado na atmosfera e amplia o estoque total de carbono atmosférico.A biofabricação, por sua vez, faz parte do ciclo do carbono: durante seu crescimento, a biomassa absorve dióxido de carbono da atmosfera, e a biofabricação transforma esse carbono em combustíveis e outros produtos. Quando esses produtos são queimados ou degradados, o carbono volta a ser liberado na forma de dióxido de carbono, retornando à atmosfera em um ciclo fechado. Portanto, a substituição de recursos fósseis por produtos à base de biomassa pode tanto reduzir efetivamente as emissões de carbono quanto ajudar a atender à crescente demanda por energia.

A China avançou rapidamente no desenvolvimento de tecnologias limpas. Quais decisões científicas, industriais ou governamentais foram mais importantes para esse progresso?

O desenvolvimento de qualquer tecnologia ou setor industrial nunca é impulsionado por um único fator. Ele resulta de uma sinergia sistêmica e de longo prazo entre ciência, políticas públicas e mercado. Nesse processo, a inovação tecnológica é sempre o ponto de partida e a principal força motriz, enquanto uma orientação política consistente e mecanismos de mercado maduros oferecem as condições essenciais para a aplicação das tecnologias.

Quais áreas da transição energética têm maior possibilidade de gerar mudanças práticas na vida cotidiana das pessoas?

Quando o custo das matérias-primas provenientes da biomassa diminui, os preços dos bens de consumo e da energia relacionados a elas também caem, enquanto a volatilidade do fornecimento energético é reduzida. Isso terá efeitos diretos e positivos na vida cotidiana das pessoas, como preços de eletricidade mais estáveis, combustíveis mais baratos e uma variedade maior de produtos ambientalmente sustentáveis. Entretanto, como diferentes países e regiões possuem recursos naturais, matrizes energéticas e estruturas industriais distintas, os caminhos mais eficazes para a transição energética também serão diferentes, o que exige coordenação global.

Como os biocombustíveis e os produtos químicos renováveis podem reduzir nossa dependência do petróleo sem aumentar a pressão sobre a produção de alimentos e o meio ambiente?

Com os avanços tecnológicos, os biocombustíveis e os produtos químicos renováveis já podem ser produzidos a partir de biomassas não alimentares, como resíduos agrícolas, óleos residuais e algas. Ao mesmo tempo, quando essas fontes são combinadas com a eletricidade limpa gerada pelas energias eólica, solar e hidrelétrica, as formas de obtenção de energia tornam-se cada vez mais diversificadas. Isso reduz nossa dependência exclusiva do petróleo e, em última análise, possibilita transições complementares e flexíveis entre diferentes formas de energia. Como as matérias-primas são principalmente recursos residuais, elas não competem com a produção de alimentos pelo uso da terra, o que reduz significativamente a pressão ambiental. Pelo contrário, a grande demanda por biocombustíveis e produtos químicos de base biológica pode estimular a realização de múltiplas safras em terras agrícolas já existentes, a recuperação de áreas abandonadas, o controle da desertificação e outras iniciativas capazes de ampliar a produção de alimentos.

“O Brasil possui a biodiversidade mais rica do mundo, uma vantagem natural única.”
Dehua Liu

E quais são os principais desafios para transformar essas descobertas científicas em soluções industriais?

Transformar avanços científicos e tecnológicos em soluções industriais é um processo que exige passar de aplicações pontuais para uma escala mais ampla e de uma tecnologia isolada para toda a cadeia de valor. Na prática, muitos sistemas de apoio ainda são insuficientes, incluindo a infraestrutura física – água, eletricidade, gás, entre outros recursos – e o suporte técnico e profissional, como formação de talentos e manutenção contínua. A estabilidade do fornecimento de matérias-primas e uma capacidade confiável de absorção da produção também são fundamentais. Talvez o maior desafio seja verificar se a própria tecnologia realmente atende às necessidades concretas do setor. Somente ao solucionar problemas reais essa transformação pode ganhar um impulso consistente.

O senhor possui mais de 50 patentes e ampla experiência na aplicação de pesquisas no setor industrial. O que determina se uma inovação desenvolvida em laboratório terá impacto real sobre a sociedade?

A resposta está no ponto de partida da inovação. Quando ela surge de problemas concretos encontrados na linha de frente da indústria e consegue solucioná-los de maneira efetiva, suas possibilidades de gerar um impacto social real são muito maiores. Por outro lado, quando a pesquisa é realizada apenas com o objetivo de ser publicada e está dissociada das necessidades do mundo real, dificilmente será implementada.

Como o senhor avalia a posição do Brasil no desenvolvimento da bioenergia em comparação com a China e outros países líderes nessa área?

O Brasil começou muito cedo a atuar no campo da bioenergia e soube combinar suas vantagens internas em recursos naturais com as tendências globais de desenvolvimento. Com isso, alcançou a atual posição de liderança mundial tanto em dimensão de mercado quanto na participação da bioenergia em sua matriz energética. Acredito que o Brasil pode continuar aproveitando plenamente suas potencialidades locais, integrar-se ativamente ao desenvolvimento global e estabelecer uma cooperação complementar com países como a China, contribuindo ainda mais para a transição energética mundial e para o desenvolvimento de baixo carbono.

A biodiversidade e a capacidade agrícola do Brasil podem transformar o país em um líder mundial em biorrefinarias e produtos de base biológica? O que ainda é necessário para concretizar esse potencial?

Acredito que isso seja plenamente possível. O Brasil possui a biodiversidade mais rica do mundo, uma vantagem natural única. O país tem tanto a capacidade quanto a responsabilidade de liderar o desenvolvimento de biorrefinarias e de produtos de base biológica. Nos últimos anos, também observei que a conexão entre a pesquisa em biofabricação e o setor industrial brasileiro se tornou mais próxima, mas acredito que essa relação ainda pode ser aprofundada. Precisamos levar os problemas da indústria para dentro dos laboratórios e acelerar a aplicação das tecnologias laboratoriais avançadas no ambiente de produção. Somente por meio dessa interação de mão dupla será possível aproveitar verdadeiramente todo esse potencial. Um aspecto deve ser enfatizado: o Brasil precisa estar mais aberto a diferentes tecnologias e equipamentos de biofabricação, assim como a profissionais de diferentes áreas, incluindo técnicos altamente qualificados.

À medida que os eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes, como Brasil e China podem combinar conhecimento científico, capacidade industrial e recursos naturais para desenvolver soluções mais eficazes?

China e Brasil, como dois importantes países em desenvolvimento, podem cooperar em diversas frentes – inovação científica, utilização de recursos e sinergia industrial – para enfrentar conjuntamente desafios globais, como o aumento da frequência dos eventos climáticos extremos. Por exemplo, as tecnologias e a capacidade produtiva chinesas, que estão entre as mais avançadas do mundo nas áreas de energia eólica, energia fotovoltaica, veículos elétricos e transmissão de corrente contínua em ultra-alta tensão, podem ser combinadas com as potencialidades brasileiras para transformar as vantagens do Brasil em recursos naturais em capacidades tecnológicas e industriais. Além disso, o enorme mercado chinês não apenas demanda grandes quantidades de soja, minério de ferro, celulose, milho e petróleo bruto do Brasil, como também apresenta grande potencial para absorver combustíveis brasileiros de baixo carbono, como etanol combustível, metanol verde e biodiesel. Os dois países também possuem amplas perspectivas de cooperação em inteligência artificial e tecnologias inteligentes. A biofabricação deve incorporar ativamente esses avanços, utilizando, por exemplo, a inteligência artificial para otimizar parâmetros dos processos, melhorar a eficiência no uso dos recursos e prever oscilações no fornecimento de matérias-primas. Ao mesmo tempo, os dois países podem combinar suas respectivas condições climáticas e seus recursos biológicos para desenvolver conjuntamente soluções de base biológica adaptadas a ambientes extremos.

Qual projeto conjunto entre China e Brasil poderia gerar benefícios concretos para a economia, o meio ambiente e a população dos dois países nos próximos anos?

O comércio entre China e Brasil já é muito ativo, e o intercâmbio entre as populações dos dois países está se fortalecendo. No entanto, acredito que a próxima etapa deve concentrar-se mais na inovação tecnológica, na formação de talentos e na sinergia industrial. Poderíamos, por exemplo, criar laboratórios conjuntos, estabelecer programas de intercâmbio estudantil e promover a transferência de tecnologia entre empresas. Esse é o caminho fundamental para garantir estabilidade e sustentabilidade no longo prazo, pois pode impulsionar o crescimento econômico, proteger o meio ambiente e beneficiar a população dos dois países.

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