Fortalecer o programa nuclear brasileiro exige transformar conhecimento em capacidade industrial, formar profissionais, desenvolver fornecedores e construir autonomia tecnológica. É nesse contexto que a Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) e a associação turca Nuclear Industry Association of Türkiye (NIATR) assinaram um memorando de entendimento voltado ao uso civil da tecnologia nuclear.
Válido por três anos, o acordo busca aproximar as cadeias de suprimentos, estimular o comércio bilateral e criar oportunidades para investimentos conjuntos. A cooperação também poderá favorecer o intercâmbio tecnológico e futuras joint ventures nas áreas industrial e de medicina nuclear.
Em meio à expansão do programa nuclear turco, a parceria poderá conectar empresas, universidades e instituições de pesquisa a parceiros internacionais, além de ampliar a participação de fornecedores nacionais em projetos no exterior. Investimentos, propriedade intelectual e transferência de tecnologia serão negociados caso a caso.
Em entrevista exclusiva ao Conexão Ásia, o presidente da ABDAN, Celso Cunha, analisa os possíveis efeitos dessa aproximação e a importância de um programa nuclear mais consistente. Também aborda o equilíbrio entre capital privado, segurança e soberania nacional.
Cunha discute ainda o que o Brasil pode aprender com países que estruturaram cadeias nucleares robustas, os critérios para a escolha de parceiros estrangeiros e os caminhos para que a cooperação internacional reduza dependências. No centro da conversa está uma questão decisiva: como transformar o potencial nuclear brasileiro em desenvolvimento tecnológico, competitividade e oportunidades para a indústria nacional.
Qual é a importância de o Brasil ter um programa nuclear mais consistente?
Um programa nuclear consistente fortalece a segurança energética, amplia a autonomia tecnológica e cria oportunidades para a indústria nacional. Além da geração de energia elétrica, a tecnologia nuclear tem aplicações estratégicas na medicina, na agricultura, na indústria e na pesquisa científica, contribuindo para o desenvolvimento econômico e tecnológico do país.
Que problemas econômicos, energéticos ou sociais um programa nuclear poderia efetivamente ajudar o país a enfrentar?
A energia nuclear contribui para garantir o fornecimento contínuo de eletricidade, apoiar a expansão de setores intensivos em energia, como os data centers, reduzir as emissões de carbono e fortalecer áreas como medicina nuclear, produção de radiofármacos, pesquisa científica e desenvolvimento industrial. É uma tecnologia que impacta diretamente a competitividade e a segurança energética do país.
Quais diferenças entre os modelos adotados pela China, Rússia, Coreias, Estados Unidos e França merecem maior atenção do Brasil?
Cada país desenvolveu estratégias próprias, mas existe um ponto em comum: todos investiram na construção de uma cadeia produtiva robusta e na formação de competências nacionais. O Brasil deve observar, especialmente, a capacidade desses países de integrar indústria, tecnologia, pesquisa e formação profissional em torno de objetivos de longo prazo.
Até que ponto a atuação do Estado e a da iniciativa privada interferem na segurança, no custo e na continuidade desses programas?
O setor nuclear exige forte participação do Estado em aspectos regulatórios, de segurança e de planejamento estratégico. Ao mesmo tempo, a participação da iniciativa privada é importante para acelerar investimentos, promover a inovação e estimular o desenvolvimento industrial. O equilíbrio entre esses dois elementos é fundamental para garantir continuidade e competitividade.
A China incorporou tecnologias estrangeiras e desenvolveu capacidade própria. Esse percurso pode servir de referência para o Brasil?
Sim. A experiência chinesa mostra a importância de absorver conhecimento, desenvolver competências nacionais e construir autonomia tecnológica ao longo do tempo. O Brasil pode seguir um caminho semelhante, utilizando a cooperação internacional para fortalecer sua capacidade industrial e tecnológica.
“Essa troca de experiências pode contribuir para o fortalecimento do setor brasileiro.”
Os temores provocados por bombas nucleares e acidentes ainda prejudicam o debate brasileiro sobre as aplicações civis da tecnologia?
Ainda existe um desafio de comunicação. Muitas vezes, a população associa a tecnologia nuclear apenas a acidentes ou armamentos, quando, na prática, ela está presente em áreas essenciais, como medicina, agricultura, indústria e geração de energia. Ampliar o conhecimento sobre essas aplicações civis é fundamental para qualificar o debate.
O que o acordo entre a ABDAN e a entidade turca NIATR poderá mudar concretamente para o setor nuclear brasileiro?
O acordo amplia a cooperação internacional do setor nuclear brasileiro e cria oportunidades para empresas, universidades e instituições dos dois países. A expectativa é facilitar o intercâmbio tecnológico, a integração de fornecedores e a aproximação entre projetos que possam gerar negócios e desenvolvimento industrial.
O que a Turquia tem a oferecer ao Brasil em tecnologia, regulação e formação profissional?
A Turquia vive um momento de expansão de seu programa nuclear e está acumulando experiências relevantes na implantação de projetos, no desenvolvimento de fornecedores e na formação de profissionais. Essa troca de experiências pode contribuir para o fortalecimento do setor brasileiro.
Quais empresas, projetos e áreas deverão participar inicialmente dessa cooperação?
Inicialmente, a cooperação deverá envolver empresas da cadeia nuclear, fornecedores industriais, instituições de pesquisa e organizações ligadas à geração de energia, à mineração, ao combustível nuclear e às novas tecnologias, incluindo os pequenos reatores modulares.
Como os fornecedores brasileiros poderão ingressar na cadeia internacional a partir desse acordo?
A aproximação institucional facilita o acesso das empresas brasileiras a oportunidades de negócios, rodadas de relacionamento, intercâmbio de informações e possíveis parcerias comerciais. O objetivo é ampliar a presença de fornecedores nacionais em projetos internacionais ao longo dos próximos anos.
“O objetivo deve ser fortalecer a autonomia tecnológica do país.”
Como serão definidos os investimentos, a propriedade intelectual e a transferência de tecnologia entre os dois países?
O memorando estabelece um ambiente de cooperação institucional. Questões relacionadas a investimentos, propriedade intelectual e transferência de tecnologia serão tratadas caso a caso, no âmbito dos acordos específicos que venham a ser desenvolvidos entre as empresas e as instituições participantes.
Que contrapartidas industriais e tecnológicas o Brasil deverá exigir de parceiros estrangeiros?
O mais importante é garantir o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional, a capacitação profissional, a geração de conhecimento e a criação de oportunidades para que fornecedores brasileiros participem dos projetos. O objetivo deve ser fortalecer a autonomia tecnológica do país.
Que garantias podem evitar a dependência de empresas ou governos estrangeiros em uma área estratégica?
O fortalecimento da indústria nacional, a diversificação das parcerias internacionais e o investimento contínuo em pesquisa, desenvolvimento e formação de profissionais são elementos fundamentais para reduzir dependências e ampliar a autonomia do país.
Como equilibrar a participação do capital privado internacional com a soberania e a segurança nacionais?
Esse equilíbrio é alcançado por meio de uma regulação sólida, do planejamento estratégico de longo prazo e do fortalecimento das capacidades nacionais. O investimento privado é importante, mas deve estar alinhado aos interesses estratégicos do país.
Quais critérios devem orientar a escolha entre fornecedores chineses, russos, norte-americanos, franceses, sul-coreanos ou turcos?
Os critérios devem considerar aspectos técnicos, segurança, confiabilidade, capacidade de transferência de conhecimento, desenvolvimento da indústria local e adequação às necessidades do programa nuclear brasileiro.
Como a ABDAN concilia os interesses de empresas públicas, fornecedores privados e companhias de países geopoliticamente concorrentes?
A ABDAN atua como entidade setorial voltada ao desenvolvimento das atividades nucleares no Brasil. Seu papel é promover o diálogo entre diferentes atores do setor, estimular a cooperação e identificar oportunidades que contribuam para o fortalecimento da cadeia nuclear brasileira, independentemente da origem dos parceiros envolvidos.
