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ENTREVISTAS

Mais do que tecnologia, a China como motor de esperança

O veterinário Arthur Catunda de Freitas é um dos jovens brasileiros que escolheram estudar na China. Mas a experiência no país asiático ultrapassa a formação acadêmica e se conecta a uma constatação mais ampla: a de que processos profundos de transformação social e econômica podem, de fato, acontecer.

“Se a China, que estava muito pior do que o Brasil, conseguiu se transformar no que é hoje, nós também conseguimos.” Com essa avaliação, ele afirma ser grato por sua vivência ter mudado sua percepção de futuro e resgatado sua esperança de que uma sociedade menos desigual e mais equilibrada também possa se tornar uma realidade brasileira.

E são essas reflexões que ele compartilha em seu instagram, quase como crônicas digiais, descontruindo estereótipos e a ampliando o entendimento sobre a vida chinesa contemporânea, como conta detalha na entrevista a seguir.

Poderia contar como surgiu seu interesse pela China e pelo estudo do mandarim?

Sempre tive interesse por idiomas. Eu estudava alemão, mas não sentia muito prazer com isso. Um dia, comprei uma rodinha para hamster na internet e fiquei apaixonado pelos caracteres chineses escritos na caixa. A partir daí, baixei um aplicativo no celular para estudar mandarim. Um colega da universidade me viu praticando e falou sobre bolsas de estudo e sobre o Instituto Confúcio (rede educacional voltada ao ensino do mandarim). Depois disso, fui lá e me matriculei.

Você está na China desde 2023, quando ainda nem havia essa “febre” chinesa. Você percebe o aumento do interesse de brasileiros pela China? 

Com certeza. A cada ano, aumenta a quantidade de brasileiros aqui. Comecei a estudar mandarim em 2019 e deveria ter vindo em 2020, mas tive de esperar os três anos da pandemia, até a China reabrir as fronteiras. Inicialmente, eu mesmo via isso apenas como um hobby e nem sabia se conseguiria a bolsa de estudos. De lá para cá, percebo que cada vez mais pessoas passaram a considerar essa possibilidade como uma opção de carreira e de mudança de vida, apostando na relevância que o mandarim vem ganhando.

É comum que muitos nem queiram começar a estudar mandarim por acharem muito difícil. O quanto isso foi desafiador para você e o que diria a quem quer começar hoje?

Comecei justamente pelo desafio. Ao ver os caracteres chineses, eu me perguntava como era possível ler daquela forma, que me parecia tão abstrata. Mas foi exatamente nisso que encontrei motivação para começar. A sensação de conquista a cada coisa nova que eu aprendia, e de poder me comunicar em um idioma tão diferente do nosso, é muito grande. Também sempre achei que tinha péssima memória, então saber que memorizei mais de cinco mil caracteres chineses aumenta minha autoestima e autoconfiança. É um processo de aprendizado que acontece naturalmente. Eu mesmo não compreendo como cabe tanta coisa dentro da minha cabeça, mas qualquer pessoa pode conseguir também, desde que persista. E basta lembrar que quase um bilhão e meio de chineses conseguem.

Quando você se deu conta de que o entendimento do mandarim estava, de fato, ajudando a compreender as nuances da civilização chinesa? 

Desde a primeira aula, estudar mandarim esteve diretamente ligado a estudar a história da China. Quando aprendi o primeiro caractere, 好 (hǎo), minha professora explicou que é a junção de mulher (女 nǚ) e filho (子 zǐ), porque, para os chineses, uma mulher ser mãe é algo bom – daí o significado desse caractere. A partir disso, ela explicou o confucionismo, que é a base do pensamento chinês, e começou a me fazer compreender melhor a história da China e a forma como eles enxergam o mundo.

O que mudou na sua percepção sobre a China e a Ásia, em geral, em relação ao que estudamos aqui na escola e na faculdade?

Eu sabia muito pouco sobre a China antes de começar a estudar mandarim. Não me lembro de ter estudado muito sobre o tema na escola. Um bom exemplo do quanto eu era ignorante nesse assunto é que eu sequer conhecia a importância de MaoZedong, a figura mais importante da história chinesa recente. Minha percepção sobre ele era a imagem difundida pelo Ocidente de um tirano ditador que matou milhões de chineses. Eu sabia que havia contradições nessa narrativa e que existiam chineses que discordavam dela, mas não sabia que, na verdade, praticamente todos os chineses discordam. Mao é visto como o pai da China moderna, e quem mais o admira são justamente os chineses que viveram aqui enquanto ele ainda estava vivo. Chegar aqui com uma imagem equivocada sobre ele é algo muito problemático. Durante a pandemia, li duas biografias dele para tentar compreender melhor quem era, e acho que ambas são bastante enviesadas pela visão ocidental. Os chineses podem admitir que ele cometeu erros, mas jamais negam que foi essencial para a existência da China moderna como a vemos hoje, além de demonstrarem enorme respeito por sua figura. Colocá-lo ao lado de Hitler, como já vi pessoas fazerem no Brasil, é um absurdo. Nossa visão da história mundial no Brasil ainda é muito ocidentalizada.

 

Morar em outro país costuma provocar uma espécie de desmontagem interior. O que a experiência na China mudou em você?

Aprendi a lidar melhor com as diferenças e a enxergar que, por trás do idioma, da religião e das crenças, somos todos iguais e dividimos o mesmo mundo. Não apenas em relação aos chineses, mas, convivendo aqui com pessoas do mundo todo, mudei muito minha visão sobre outros lugares. É algo que transforma a nossa percepção das coisas. Ouvir falar sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia é diferente quando você tem amigos russos e ucranianos. O conflito deixa de soar como algo distante e totalmente desconectado da minha realidade. Uma amiga da Jordânia me mostra vídeos que a família dela grava dos mísseis que o Irã envia a Israel cortando o céu jordaniano. Essa percepção de que estamos todos no mesmo mundo é assustadora, assim como conhecer pessoas que têm a vida afetada por esses conflitos e ouvir a história de cada uma delas. Tudo é muito mais complexo do que aquilo que vemos na televisão no Brasil ou do que um post no instagram é capaz de explicar. Nossa percepção das coisas costuma ser muito rasa e, muitas vezes, enviesada pelos interesses do Ocidente, se não buscarmos nos aprofundar na pesquisa.

“Um chinês me perguntou por que, se os cristãos gostam tanto de Jesus, o representam justamente na cruz, que provavelmente foi o pior momento de sua vida.”

 

Há aspectos da cultura chinesa que, de fato, ganham outro significado quando compreendidos por dentro? Que exemplos ajudam a explicar isso melhor ao público brasileiro? 

Eu gosto de falar no meu instagram sobre a homossexualide, porque esse é um assunto que é mal discutido no Brasil e que me afeta diretamente vivendo aqui. É claro que como um homem gay eu espero que o mundo avance na aceitação e deixe de lado o pensamento conservador que trata isso como um tabu, mas respeito o pensamento chinês e a forma deles lidarem com esse assunto. Antes de vir pra cá, eu tinha um certo receio por saber que aqui não se fala muito sobre isso e que casamento gay ainda não é legal, mas depois de viver aqui, percebi que isso está relacionado a forma deles de deixarem as vidas privadas no privado, não é de interesse público discutir a sexualidade. Eles não falam muito sobre isso, mas isso não significa que gays não têm direitos na China. Antes de ser gay, todo chinês é primeiramente um cidadão chinês e está protegido pelas mesmas leis que todos os outros. Aqui não existem índices alarmantes de violência por causa da sexualidade, então eles não precisam de leis especiais pra proteger as pessoas desse grupo e nem de movimentos e passeatas pedindo por mais empatia e respeito. Quanto ao casamento, isso toca no conservadorismo dos mais velhos, e a hierarquia social chinesa respeita o que os mais velhos pensam. Eles não vão tentar forçar isso antes da hora, eles têm suas formas de contornar essa situação sem o reconhecimento legal do matrimônio por parte do estado e garantir os mesmos direitos através de outras leis. Então acho que é uma questão de tempo para que os mais jovens entrem na política e mudem isso, porque o pensamento da sociedade chinesa muda o tempo todo. Um chinês que nasceu na China republicana é muito diferente de um que já nasceu com douyin (versão chinesa do TikTok) baixado no celular. No Brasil, também temos essa diferença de pensamento de uma geração para outra, mas aqui eu acho a discrepância gritante. Conhecer famílias chinesas e ficar próximo de uma senhorinha que é avó e me trata como se fosse o próprio neto também me ajudou a entender a importância que eles dão a ter filhos. Por isso a adoção não é tão interessante nem para os próprios chineses que são gays. Eles pensam mais em inseminação artificial para passar o próprio sangue adiante, porque isso é muito importante na cultura deles. Geralmente é a maior preocupação de uma mãe chinesa quando o filho resolve se assumir. Elas se importam mais de pensar que não vão ter um neto do que com a sexualidade propriamente dita do filho. Sobre religião, eles não tem a visão religiosa que temos de que isso é um pecado e você vai para o inferno, a preocupação deles nesse ponto é “Se eu não tiver netos, quem vai acender incensos pra mim e para os nossos ancestrais depois da minha morte?”.

Você contou um caso muito interessante no instagram sobre sua colega vietnamita ter lhe perguntado quem era Eva e quem era a “cobra falante” da Bíblia…

Isso surgiu em uma aula de comunicação intercultural, voltada justamente à discussão de diferenças culturais. Em um momento da aula, a professora mencionou Adão e Eva em chinês, e a colega vietnamita que estava ao meu lado me perguntou quem eles eram. Primeiro, achei que ela apenas não conhecesse os nomes em chinês. Pesquisei em inglês, depois em vietnamita, mostrei imagens, mas ela realmente não sabia quem eram. Aquilo me marcou muito, porque me fez perceber, de forma bastante concreta, que o que para mim parecia básico dentro do cristianismo não faz parte da referência de todo mundo. Ela disse que sabia quem era Jesus, mas o descreveu como “aquele homem do seu país que fica de braços abertos”, em alusão ao Cristo Redentor. Em outra ocasião, um chinês me perguntou por que, se os cristãos gostam tanto de Jesus, o representam justamente na cruz, que provavelmente foi o pior momento de sua vida. Disse que aquilo não lhe parecia uma homenagem muito positiva. Foi uma situação que me fez refletir sobre como aquilo que consideramos óbvio muitas vezes é apenas parte do nosso próprio repertório cultural.

O que a vida prática na China ensina sobre disciplina, adaptação e leitura de contexto que brasileiros só compreendem plenamente quando vão além do olhar de turista?

Adaptar-se ao modelo chinês de disciplina é um desafio no começo. Exemplo disso é que, na minha faculdade no Brasil, havia tolerância de 15 minutos para atraso; aqui, os alunos chegam 15 minutos antes e ficam esperando o professor na sala. Se você chega no horário, já está atrasado. Eles levam os estudos e o trabalho muito a sério e estão dispostos a abrir mão do lazer em nome da disciplina. Tenho amigos que trabalham sete dias por semana, fazendo hora extra até nos dias de folga para ganhar mais dinheiro. Pensam muito no futuro e é como se já nascessem com um plano de vida pronto: há uma idade esperada para casar, comprar carro, apartamento. Se você não acompanha o ritmo da sociedade, logo se sente mal ou atrasado na vida. Não à toa o país avança tão rápido: eles trabalham muito para isso. Os mais jovens já começaram a refletir mais sobre a importância do lazer, do descanso e de aproveitar a vida, ressignificando essa cultura do trabalho. Mas, no geral, são extremamente disciplinados e mais acostumados a lidar com pressão e prazos curtos no ambiente profissional. Isso costuma ser um desafio para brasileiros que vêm para cá.

Nos seus stories, você comenta alguns dos mitos que ainda cercam a China, como liberdade de expressão, liberdade política e religiosa. O que, nesses assuntos, você percebeu que era mito, o que se confirmou e o que mais o surpreendeu ao vivenciar essa realidade de perto? 

Nós somos muito influenciados por uma propaganda que tenta mostrar a China como um lugar onde as pessoas não têm liberdade, mas a verdade é que os chineses são mais livres do que nós. Aqui, a sua liberdade termina onde a do outro começa. Portanto, não é permitido invadir o espaço alheio nem tentar forçar as pessoas a acreditarem nas mesmas coisas que você. Falar mal dos governantes é malvisto a partir da visão confucionista. Fazer memes com o presidente, da forma como fazemos no Brasil, é visto por eles como uma forma de desrespeitar a própria nação. Mesmo que você não goste de quem governa, essa pessoa representa o seu país e, por isso, deve ser respeitada. O que mais me choca é, com certeza, a questão da liberdade. Muitos brasileiros criticam o fato de haver câmeras em todos os lugares, mas, para mim, isso é uma das melhores coisas daqui. Se você não estiver fazendo nada de errado, não há por que ter medo de estar sendo filmado. Não é como se houvesse sempre um chinês te observando: existem milhões de câmeras, e os arquivos só são verificados se algo errado acontecer. Por isso, não vejo motivo para criticar esse sistema. Acho, inclusive, que seria ótimo se o Brasil também fosse assim.

Lembrando das suas aulas no ensino médio no Brasil e considerando sua experiência na Ásia hoje, você levantaria a mão para fazer alguma intervenção sobre o que é ensinado e o que tem aprendido na prática?

Nosso aprendizado de história é muito eurocentrado. Acho que falta um foco maior no restante do mundo e uma compreensão mais ampla da história mundial. Eu não me lembro de ter estudado sobre a China na escola. Talvez tenha tido uma ou duas aulas em algum momento, mas nada disso ficou na minha memória. Eu gostava muito de estudar as guerras mundiais no ensino médio, e foi só depois de vir para a China que aprendi sobre os horrores que o Japão cometeu aqui durante a Segunda Guerra. Isso aparecia apenas como uma pequena menção nesse capítulo do meu livro, sem que fosse apresentado o real papel do Japão nessa parte da história. Aprendemos que eles sofreram com as bombas atômicas, mas não nos ensinam por que muitos chineses chegaram a comemorar quando elas foram lançadas.

 

Como você acha que os chineses com os quais convive percebem o Brasil e se interessam pelo país? O que você nota no imaginário deles sobre o Brasil e os brasileiros? 

Eles ainda sabem muito pouco sobre o Brasil. São poucos os que conseguem citar alguma cidade brasileira, e raríssimos os que conhecem alguma além do Rio de Janeiro e de São Paulo. Toda vez que digo que sou brasileiro, me perguntam se sei jogar futebol. Percebi que esse é o nosso maior soft power aqui, a imagem mais positiva que eles têm de nós. Com o BRICS, muitos também passaram a conhecer mais sobre o nosso país e a falar do Brasil como uma nação amiga.

“É só você olhar para a China, que você vê que para tudo tem um jeito!

Apesar de todo o crescimento da China e de seu potencial nas mais diversas áreas, como em qualquer país também devem existir grandes problemas no dia a dia. Há algo que você perceba ser simplificado demais quando se fala sobre isso?

Acho que a cultura do excesso de trabalho, que mencionei antes, é um bom exemplo. No Brasil, as pessoas costumam enxergar isso de forma muito extrema: ou admiram e acham que é algo puramente positivo, por refletir disciplina, ou criticam como se os chineses fossem escravos sem poder de decisão. Na verdade, isso faz parte da mentalidade social deles, e muitos nem veem mais tempo de descanso como algo necessariamente positivo. Eles escolhem trabalhar mais e se cobrar mais, porque foram condicionados a normalizar essa lógica. Só agora os mais jovens começaram a questionar essa cultura, que vem de muito tempo. Outro exemplo é a forma como a pobreza ou a economia cotidiana podem ser interpretadas por quem vê de fora. Eu costumava ver idosos chineses recolhendo garrafas para reciclagem e achava que era por necessidade. Depois, conversando com uma senhorinha, percebi que o que um amigo chinês tinha me explicado era verdade: muitos têm aposentadoria e filhos em boas condições, mas cresceram em uma China muito pobre. Por isso, aproveitam qualquer chance de ganhar mais dinheiro, mesmo com pequenas coisas. Para eles, isso não é vergonha, mas uma forma prática de aproveitar o tempo livre.

O que a China mudou a sua percepção de futuro? 

A China dá esperança para gente. Quando você compara como era a China 20 anos atrás e como é a China hoje em dia… Antes de vir para cá, eu pensava que o Brasil ia ser sempre do jeito que ainda é agora: que a desigualdade seria um problema sem solução, que a favela seria para sempre uma favela… Mas não é assim, não precisa ser desse jeito. Tudo tem solução! Olha a China. Quase um bilhão e meio de pessoas que conseguiram sair da pobreza, gente que passou fome. Então, a gente consegue também. É isso que eu gosto na China, é isso que me anima. E ver o Brasil se aproximando da China, ver essa parceria crescendo entre os dois países é muito bom. Eu tenho muita gratidão pela sociedade chinesa, e essa gratidão é a minha esperança na sociedade brasileira. Esperança de que um dia a gente chegue nesse patamar. O que parece impossível, pode ser possível sim. É só você olhar para a China, que você vê que para tudo tem um jeito!

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