Relações interculturais com qualidade e profundidade

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com qualidade e profundidade

ENTREVISTAS

Quando respirar se torna um posicionamento coletivo

Respirar é, no cotidiano, um gesto individual e automático de vida. Na ilha de Jeju, na Coreia do Sul, porém, grupos de mulheres mostram que essa prática também pode ser um posicionamento coletivo. Há gerações, elas mergulham em águas geladas e cheias de riscos para colher frutos do mar em apneia, sem qualquer equipamento de respiração. Mais do que qualquer lógica de competição individual, permanecem atentas às condições do mar, aos cuidados necessários e ao fôlego umas das outras, em uma espécie de “respiração coletiva”. São as Haenyeo (pronuncia-se ré-nió), personagens que a pesquisadora Jinhee Park, curadora da exposição “Sopro do Mar – Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade”, aproxima do público brasileiro com a mostra em exibição no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), em São Paulo, até 30 de agosto, como ela conta a seguir.

Respirar é, no cotidiano, um gesto individual e automático de vida. Na ilha de Jeju, na Coreia do Sul, porém, grupos de mulheres mostram que essa prática também pode ser um posicionamento coletivo. Há gerações, elas mergulham em águas geladas e cheias de riscos para colher frutos do mar em apneia, sem qualquer equipamento de respiração. Mais do que qualquer lógica de competição individual, permanecem atentas às condições do mar, aos cuidados necessários e ao fôlego umas das outras, em uma espécie de “respiração coletiva”. São as Haenyeo (pronuncia-se ré-nió), personagens que a pesquisadora Jinhee Park, curadora da exposição “Sopro do Mar – Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade”, aproxima do público brasileiro com a mostra em exibição no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), em São Paulo, até 30 de agosto, como ela conta a seguir.

A tradição das Jeju Haenyeo foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, mas é comum que as pessoas no Brasil conheçam essas personagens por K-dramas como “Se a Vida Te Der Tangerinas” e “De Volta às Raízes”. Qual é a sua percepção sobre a popularização de uma tradição como a das mergulhadoras de Jeju por meio das séries de TV?

Acredito que uma das principais contribuições positivas dos meios de comunicação de massa é permitir que as pessoas entrem em contato indireto com diversas culturas do mundo que seriam difíceis de vivenciar presencialmente, por restrições de tempo e recursos financeiros. Naturalmente, dependendo da perspectiva do autor ou da intenção da direção, partes específicas de uma cultura podem ser enfatizadas ou simplificadas ao serem transmitidas.

Às vezes, existe também a possibilidade de distorção. Contudo, apesar dessas limitações, considero que o efeito dos meios de comunicação de massa em divulgar o patrimônio cultural para muitas pessoas e despertar interesse é extremamente grande.

Acredito que, para que a cultura tradicional seja preservada, ela não deve permanecer apenas no domínio dos especialistas, mas é necessário criar muitas oportunidades de comunicação com o público.

Para o público brasileiro, qual é a importância de apresentar uma tradição como a das mergulhadoras de Jeju?

Acredito que o K-Pop, os filmes, os K-Dramas e a comida desempenharam um grande papel no aumento do interesse pela cultura coreana, a K-Culture, no Brasil. É evidente que, por meio desses conteúdos, os brasileiros estão entrando em contato com a cultura coreana de forma acessível e amigável.

No entanto, a imagem da Coreia formada por meio de conteúdos da cultura pop pode, às vezes, ser limitada. Existe a possibilidade de que apenas algumas facetas da cultura coreana sejam enfatizadas ou, por vezes, transmitidas como uma imagem mais idealizada do que a realidade. Penso que uma das maneiras de complementar essas limitações é apresentar a autêntica cultura tradicional.

Isso porque a cultura tradicional carrega em si, justamente, o modo de vida, os valores e a configuração comunitária que uma sociedade acumulou ao longo de um longo período. Nesse sentido, a cultura das Jeju Haenyeo possui um significado muito especial. Isso porque sua cultura vai além de uma simples técnica de mergulho ou da história de uma subsistência, sendo um patrimônio cultural único, no qual as mulheres de Jeju têm cooperado e cuidado umas das outras, mantendo a comunidade.

Além disso, é também uma cultura viva, que não permanece como um legado do passado, mas que respira e continua nos dias de hoje. Se o K-Pop e os K-Dramas são a primeira porta em direção à cultura coreana, a cultura das Jeju Haenyeo poderá ser mais uma porta que conduz a uma compreensão ainda mais profunda da Coreia.

O que de fato impacta para uma comunidade quando sua prática passa a ser vista como patrimônio do mundo?

Em muitos casos, os membros de uma comunidade aceitam o modo de vida e a cultura que mantêm há muito tempo como uma rotina diária extremamente natural. No entanto, quando isso passa a ser reconhecido como Patrimônio Mundial ou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, eles percebem que a sua própria cultura não é uma mera tradição local ou forma de subsistência, mas sim um patrimônio valioso que a humanidade deve preservar coletivamente.

Portanto, de forma natural, os membros dessa comunidade passam a desenvolver um forte orgulho em relação à cultura que têm mantido.

Contudo, essa mudança não se limita ao simples aumento do orgulho. A transformação ainda mais importante é o fortalecimento da identidade comunitária. No passado, as Haenyeo tinham que arcar com o sustento de suas famílias, razão pela qual a sua identidade profissional, vinculada à subsistência, era mais forte.

Após o reconhecimento pela Unesco, as Haenyeo passaram a perceber a si mesmas não apenas como trabalhadoras que coletam frutos do mar no oceano, mas como agentes principais que herdam e transmitem a história e a cultura da comunidade. Em outras palavras, a identidade do indivíduo se expande para uma identidade coletiva de herdeira da cultura comunitária.

“Na comunidade das Jeju Haenyeo, as crianças crescem sob o cuidado não apenas de suas mães, mas também das tias Haenyeo.”

Em um tempo marcado pelo individualismo e pela desconexão, que valores da cultura Haenyeo podem dialogar com as sociedades contemporâneas, inclusive no Brasil?

Trabalhando em um mar perigoso, as Haenyeo dependem unicamente de sua própria respiração; porém, nenhuma respiração é solitária. Elas observam o mulsum (o fôlego que permite resistirem sob a água) umas das outras e apoiam-se mutuamente.

Além disso, durante o trabalho comunitário, trocam opiniões incessantemente e buscam resolver as dificuldades e os problemas de maneira conjunta dentro desse processo.

Acredito que esse valor coletivo, formado a partir do cuidado mútuo, pode criar um profundo vínculo de empatia com a sociedade brasileira. O Brasil também possui uma tradição cultural que valoriza a família e a comunidade.

O que quero dizer é que a família não significa simplesmente apenas os pais e os filhos, mas possui um caráter coletivo, no qual as pessoas cuidam e dependem umas das outras dentro de uma ampla rede de relacionamentos que inclui parentes, vizinhos e amigos.

Acredito que a cultura profissional da “tia” no Brasil também pode ser compreendida nesse contexto. Ouvi dizer que, em muitos casos, a “tia” não é uma mera trabalhadora doméstica, mas sim lembrada como uma presença que acompanha o crescimento das crianças e cuida delas.

Na comunidade das Jeju Haenyeo, as crianças crescem sob o cuidado não apenas de suas mães, mas também das tias Haenyeo. Acredito que a razão pela qual a cultura das Haenyeo pode causar um eco especial entre os brasileiros também reside nesse ponto.

Penso que esse valor do cuidado mútuo e da solidariedade é o elo que conecta as Jeju Haenyeo e o povo brasileiro.

As Haenyeo mergulham sem equipamento de respiração e dependem do conhecimento sobre o mar, as marés e o próprio corpo. Como esse saber é transmitido entre gerações?

O conhecimento e a transmissão sobre o muljil (a colheita dos frutos do mar) das Haenyeo são construídos por meio da experiência e das relações dentro da comunidade.

No passado, em Jeju, muitas Haenyeo entravam em contato com o muljil de forma natural ao observar suas mães ou tias Haenyeo. Desde a infância, as crianças faziam do mar o seu espaço de brincadeira e aprendiam naturalmente, em meio à rotina diária, o fluxo das correntes marítimas, a direção dos ventos, as mudanças das marés, entre outros fatores.

Posteriormente, começavam o muljil no mar raso, chamado de aegi-badang (애기바당), acumulando experiência aos poucos.

A comunidade das Haenyeo divide-se de acordo com a técnica de muljil, a experiência e a sabedoria da Haenyeo, resultando em três níveis de habilidade: hagun, iniciante; junggun, intermediário; e sanggun, avançado.

As Haenyeo da categoria sanggun, que possuem vasta experiência, não ensinam apenas a técnica de mergulho às mais jovens, mas também como calcular o próprio mulsum, como temer e, ao mesmo tempo, respeitar o mar, além de ensinar a deixar a ganância de lado.

O importante para as Haenyeo não é coletar em grande quantidade, mas sim retornar em segurança.

Hoje em dia, além do método tradicional de transmissão, a educação também é realizada em escolas de Haenyeo. Para a formação de novas mergulhadoras e a sucessão da cultura das Haenyeo, funcionam escolas com treinamentos que auxiliam na compreensão das técnicas de mergulho.

Nelas, ensinam-se também a história da cultura das Haenyeo, o espírito coletivo e a ecologia marinha.

Dessa forma, a transmissão do conhecimento e da técnica inicia-se no respeito aos regulamentos e às normas da comunidade, ocorrendo no processo de entregar à próxima geração o modo de vida no trato com a natureza e com a comunidade.

Até hoje, o método tradicional de transmissão continua em vigor.

As Haenyeo sustentaram famílias, preservaram saberes e ocuparam um lugar de protagonismo em uma sociedade que nem sempre deu centralidade às mulheres. Como essa história amplia o olhar sobre o papel feminino na cultura coreana?

Muitas pessoas pensam que, na sociedade tradicional coreana, as mulheres não possuíam uma profissão, permanecendo dentro do lar e auxiliando o homem. A história das Haenyeo mostra que esse senso comum não explica a totalidade da sociedade tradicional coreana.

Historicamente, as Haenyeo têm sido, há muito tempo, os principais agentes da atividade econômica que assumiram a responsabilidade pelo sustento de suas famílias.

Especialmente devido à característica de que o seu território de vida é uma ilha, a figura da Haenyeo era, frequentemente, a encarregada da principal renda doméstica por meio do muljil, sendo, portanto, uma realidade social diferente da imagem da sociedade tradicional centrada no homem.

Além disso, durante o período da colonização japonesa, as Jeju Haenyeo deixaram a ilha e realizaram o muljil em regiões como o Japão, a Rússia e a China, apoiando economicamente as suas famílias e as comunidades locais.

Elas ainda realizaram o movimento anticolonial japonês, resistindo com ações coletivas a fim de proteger os direitos da comunidade, incluindo o direito à sobrevivência.

Por meio da renda obtida com o muljil, elas participaram do estabelecimento de escolas e do apoio educacional voltados para as suas vilas, dedicando-se ao futuro das próximas gerações.

Esses exemplos históricos provam que as Haenyeo não são meras trabalhadoras, mas sim agentes econômicos e membros da comunidade; pessoas que praticaram por si mesmas, ao longo de muito tempo, a ideia de que as mulheres também podem liderar a comunidade e transformar a sociedade.

“Esta exposição é sobre as Jeju Haenyeo, mas, ao mesmo tempo, é uma exposição sobre o ser humano.”

A ilha de Jeju é também um destino turístico importante. Como é possível apresentar as Haenyeo como patrimônio cultural e, ao mesmo tempo, evitar que essa tradição seja reduzida apenas a uma atração turística?

Acredito que não há necessidade de enxergar de forma negativa o fato de a cultura das Jeju Haenyeo ser utilizada como um recurso turístico. Pelo contrário, para que uma cultura se torne conhecida pelas pessoas e receba muita atenção, são necessários diversos pontos de contato, tais como o turismo, as exposições, a educação e as mídias.

O problema reside na forma como fazemos com que as Haenyeo sejam lembradas. Se elas forem consumidas apenas como meras “pessoas especiais que realizam o muljil sem equipamentos mecânicos” ou como uma “paisagem exótica que os turistas observam”, o valor essencial da cultura das Haenyeo desaparecerá gradualmente.

De fato, o que a Unesco reconheceu não foi apenas a técnica de mergulho em si, mas sim a cultura coletiva, a sabedoria ecológica, o cuidado mútuo e o sistema de transmissão que as Haenyeo construíram.

A razão pela qual pesquisei a cultura coletiva das Jeju Haenyeo em minha tese de doutorado também se encontra aqui. Pensei que, para preservar a cultura delas de forma sustentável, é necessário compreendê-la não como um simples produto turístico, mas como uma marca turística cultural.

Uma marca não é apenas um mero nome e imagem, mas a relação significativa que as pessoas estabelecem com o objeto.

Nos resultados da minha pesquisa, também foi demonstrado que, quando a compreensão e a empatia em relação à cultura comunitária das Haenyeo são formadas, as pessoas se transformam: deixam de ser turistas que apenas as observam e passam a ser indivíduos que se sensibilizam com o valor da cultura das Haenyeo e o apoiam.

Que reflexão você gostaria que o público levasse sobre as Haenyeo?

Espero que não se lembrem das Haenyeo simplesmente como profissionais especiais que trabalham no mar. É evidente que as Jeju Haenyeo são mulheres fortes e corajosas que coexistiram com o mar violento por centenas de anos.

Contudo, o que eu quero mostrar não é a mera força do trabalho. Na verdade, desejo mostrar a cultura coletiva que elas construíram para cuidar umas das outras e viverem juntas, ao mesmo tempo que competem dentro do mar.

Espero que os visitantes brasileiros possam evocar as suas próprias famílias, vizinhos e as comunidades às quais pertencem dentro da história das Haenyeo.

Embora Jeju e Brasil estejam geograficamente muito distantes, possuem uma semelhança surpreendente no fato de prezarem a família e a comunidade.

Como os valores de cuidado e solidariedade demonstrados pela comunidade das Haenyeo são valores universais que podem ser plenamente compartilhados na sociedade brasileira de hoje, anseio que todos possam acolher novamente essa importância em seus corações.

No final das contas, esta exposição é sobre as Jeju Haenyeo, mas, ao mesmo tempo, é uma exposição sobre o ser humano.

Desejo que os visitantes, por meio do aspecto sincero e das histórias das Haenyeo, lembrem-se de que não somos existências que vivem sozinhas, mas sim existências que protegem a respiração umas das outras, respirando e vivendo juntas lado a lado.

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