Câmbio do diaRMB/¥ · US$ · R$
Relações interculturais com qualidade e profundidade
Atualizado diariamente

ENTREVISTAS

Para além das emergências

A pandemia de covid-19 deixou mais do que evidente que falar sobre vacinas também é falar sobre a capacidade de um país proteger sua população. Agora, a conversa vai além de uma emergência: trata-se de garantir acesso contínuo a imunizantes e preparar o sistema de saúde para necessidades futuras.

Nesta entrevista ao Conexão Ásia, Meng Weining, vice-presidente da biofarmacêutica chinesa SINOVAC – que se tornou mais conhecida dos brasileiros por produzir a vacina CoronaVac –, aborda o que a produção de vacinas em larga escala pode oferecer a uma parceria com o Brasil. Ele destaca a experiência brasileira em imunização e pesquisa clínica e explica por que conhecer as prioridades de saúde, a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e as particularidades de cada país é essencial para uma cooperação efetiva.

Na entrevista, ele fala sobre a produção local, a transferência de tecnologia e a formação de profissionais, descrevendo as condições necessárias para que novas tecnologias cheguem à população com qualidade e segurança. A conversa mostra ao leitor os resultados concretos que essas iniciativas podem deixar no Brasil, como um fornecimento mais confiável, conhecimento nas instituições e maior capacidade de resposta a emergências.

O que a escolha de Pequim para sediar a 27ª Reunião Anual da Developing Countries Vaccine Manufacturers Network (DCVMN) representa para a participação da China na saúde global?

Sediar o DCVMN em Pequim é uma oportunidade de aproximar fabricantes de países em desenvolvimento de um dos principais polos mundiais de produção e pesquisa de vacinas. Ao longo das últimas décadas, a China desenvolveu capacidades significativas em produção, pesquisa e cadeias de suprimentos e, hoje, pode contribuir para ampliar a cooperação internacional e apoiar outros países no fortalecimento de suas próprias capacidades. Mais do que apresentar essa experiência, esse grande evento oferece uma oportunidade para ouvir as prioridades dos diferentes parceiros, compartilhar conhecimento e identificar caminhos para uma cooperação mais próxima. É por meio desse diálogo que a experiência de cada país pode se transformar em soluções mais adequadas às necessidades de sua população.

O que a SINOVAC aprendeu ao atender países com diferentes contextos sociais, culturais e de saúde pública?

Nossa experiência mostrou que ampliar o acesso à vacinação vai muito além de produzir e fornecer doses. Cada país tem suas próprias prioridades epidemiológicas, infraestrutura logística, regulamentações, profissionais de saúde e formas de construir confiança na vacinação. Na prática, a distribuição de vacinas em regiões de difícil acesso e a colaboração com parceiros brasileiros reforçaram a importância de planejar em conjunto com as instituições locais em todas as etapas, da pesquisa à chegada das vacinas à população.

Como as necessidades e particularidades culturais de cada país influenciam o desenvolvimento de uma parceria em saúde?

Uma parceria começa pela escuta e pela compreensão do contexto local. É essencial entender as prioridades de saúde pública, o calendário de imunização, a capacidade do sistema de saúde e as preocupações da população. As diferenças culturais também influenciam a forma como as equipes trabalham em conjunto, compartilham evidências e constroem confiança. Por isso, acreditamos que as soluções precisam ser desenvolvidas em conjunto com os parceiros locais. Eles conhecem de perto a realidade de cada país e desempenham um papel fundamental na tomada de decisões e na implementação.

Em quais áreas Brasil e China têm maior potencial para avançar conjuntamente na pesquisa, produção e distribuição de vacinas?

Na perspectiva da SINOVAC, como fabricante de vacinas e parceira tecnológica, Brasil e China demonstraram potencial para colaborar combinando capacidades científicas, industriais e tecnológicas, ao mesmo tempo em que se reconhece a sólida experiência brasileira em programas de vacinação e pesquisa clínica. No caso da SINOVAC, as Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) estabelecidas com parceiros brasileiros têm contribuído para uma agenda voltada à transferência de tecnologia e à produção local de vacinas alinhadas às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Com base na experiência da SINOVAC, as oportunidades de colaboração podem incluir áreas como pesquisa clínica, desenvolvimento de tecnologias e fortalecimento do acesso às vacinas. Quaisquer futuras iniciativas de cooperação devem continuar sendo desenvolvidas em coordenação com as autoridades de saúde brasileiras e os parceiros locais, de acordo com as prioridades de saúde pública estabelecidas pelo Brasil.

Como a experiência brasileira em imunização, pesquisa clínica e saúde pública pode contribuir para projetos com a SINOVAC?

O Brasil tem ampla experiência em imunização, apoiada por um sistema público de saúde robusto, instituições científicas consolidadas e experiência na condução de pesquisas clínicas, incluindo estudos multicêntricos. Na perspectiva da SINOVAC, essa experiência representa uma base importante para potenciais colaborações, pois contribui para uma melhor compreensão das necessidades locais, apoia o desenvolvimento de estudos adaptados ao contexto brasileiro e ajuda a identificar oportunidades para ampliar o acesso às vacinas. Ao combinar as capacidades científicas e tecnológicas da SINOVAC com a experiência do Brasil em imunização e saúde pública, futuras colaborações podem ser desenvolvidas em alinhamento com as prioridades das autoridades de saúde brasileiras e dos parceiros locais.

Quais demandas da saúde brasileira poderiam orientar novas iniciativas da empresa no país?

O ponto de partida deve ser sempre as necessidades do país e as prioridades definidas pelas autoridades e instituições brasileiras. Isso inclui garantir um fornecimento estável de vacinas essenciais e fortalecer a capacidade do país de responder a emergências de saúde pública. As PDPs já anunciadas estão alinhadas às prioridades do SUS e demonstram como essa agenda pode ser construída de forma colaborativa. Para os próximos passos, é importante avaliar cada oportunidade considerando as necessidades epidemiológicas, a viabilidade científica, a capacidade industrial e os requisitos regulatórios. Acima de tudo, novas iniciativas devem responder a necessidades concretas do sistema de saúde brasileiro.

“Uma transferência de tecnologia bem-sucedida exige uma cooperação próxima entre o fornecedor da tecnologia e o parceiro local.”

Que impacto a produção local acompanhada de transferência de tecnologia poderia ter sobre a capacidade sanitária do Brasil?

A produção local, quando acompanhada de uma transferência efetiva de tecnologia, pode fortalecer significativamente a capacidade sanitária do Brasil. Ela pode ajudar a reduzir vulnerabilidades no abastecimento, formar profissionais qualificados e ampliar a capacidade do país de responder a diferentes necessidades de saúde. Esse processo exige tempo, investimento e uma implementação cuidadosa, envolvendo infraestrutura, qualificação das equipes, validação dos processos e acompanhamento regulatório. É assim que enxergamos uma parceria de longo prazo com as instituições brasileiras, como uma parceria que deixe no país não apenas produtos, mas também conhecimento e capacidades locais.

E como essa transferência de tecnologia pode, de fato, se transformar em formação profissional, pesquisa e fortalecimento das instituições brasileiras?

A transferência de tecnologia não é simplesmente a transferência de um processo produtivo; trata-se de um processo abrangente de compartilhamento de conhecimento, colaboração científica e desenvolvimento de capacidades. Uma transferência de tecnologia bem-sucedida exige uma cooperação próxima entre o fornecedor da tecnologia e o parceiro local, incluindo treinamento técnico, resolução conjunta de problemas e suporte contínuo ao longo das etapas de implementação, validação e otimização. Esse processo também envolve pesquisa e desenvolvimento científico, já que as tecnologias de produção exigem uma compreensão aprofundada do produto, do processo produtivo, dos métodos de controle de qualidade e dos princípios científicos que sustentam a tecnologia. Construir essa base de conhecimento permite que as equipes locais não apenas operem a tecnologia, mas também a aprimorem continuamente e desenvolvam suas capacidades. Instituições fortes também são essenciais para garantir a sustentabilidade da transferência de tecnologia. Autoridades regulatórias, universidades, instituições de pesquisa e órgãos de controle desempenham um papel fundamental ao fornecer a estrutura científica, regulatória e institucional necessária para que os acordos sejam implementados com sucesso, os padrões de qualidade sejam mantidos e as parcerias gerem valor de longo prazo para o país.

Qual deve ser o papel de governos, universidades, centros de pesquisa e empresas na construção de uma cooperação que gere resultados para a população?

Cada parte envolvida tem um papel complementar na construção de uma cooperação bem-sucedida. Governos e instituições públicas definem as prioridades de saúde e criam a estrutura necessária. Universidades e centros de pesquisa contribuem com conhecimento científico, inovação e formação. As empresas agregam expertise tecnológica, capacidade de desenvolvimento e apoio à implementação. O sucesso de uma parceria depende de objetivos claros, responsabilidades compartilhadas e compromisso com a qualidade. Quando esses elementos se unem, a cooperação pode fortalecer instituições, gerar conhecimento e contribuir para ampliar o acesso da população a soluções de saúde.

Como uma interação mais próxima entre pesquisadores e profissionais brasileiros e chineses pode ampliar a confiança e reduzir barreiras interculturais?

A confiança é construída por meio da convivência contínua e do trabalho conjunto. Quando pesquisadores e profissionais brasileiros e chineses compartilham experiências, discutem resultados e enfrentam desafios lado a lado, passam a compreender melhor as formas de trabalho uns dos outros e os diferentes contextos dos dois países. Programas de intercâmbio, treinamentos e projetos conjuntos ajudam a aproximar as equipes e a reduzir ruídos de comunicação. Para além de facilitar um projeto específico, essa interação constrói relações de confiança que podem perdurar e criar oportunidades para futuras colaborações.

Quais avanços regulatórios seriam necessários para facilitar a cooperação entre os dois países, mantendo a qualidade e a segurança das vacinas?

A qualidade e a segurança das vacinas são princípios fundamentais no desenvolvimento e na fabricação de vacinas, e esses padrões já estão bem estabelecidos globalmente. A cooperação entre países é construída com base no diálogo técnico, na transparência e na compreensão mútua dos requisitos regulatórios. Em todo o mundo, autoridades regulatórias já colaboram por meio de intercâmbios técnicos, compartilhamento de informações e iniciativas que promovem maior alinhamento das práticas regulatórias. Essa cooperação contínua ajuda a fortalecer os sistemas regulatórios e permite que vacinas desenvolvidas em diferentes regiões sejam avaliadas e disponibilizadas em diversos países, mantendo os mais elevados padrões de qualidade, segurança e eficácia.

“Nossa intenção é continuar construindo essa agenda em conjunto com as instituições brasileiras.”

Entre vacinas combinadas, novas formas de administração, adjuvantes avançados e inteligência artificial, quais inovações estão mais próximas de produzir benefícios concretos?

Cada uma dessas inovações tem potencial para contribuir para o futuro da vacinação, mas as mais relevantes serão aquelas capazes de transformar o progresso científico em soluções práticas para as necessidades de saúde pública. Vacinas combinadas e novas formas de administração estão entre as abordagens com potencial de impacto mais imediato, pois podem ajudar a simplificar os calendários de vacinação, trazer mais conveniência para os sistemas de saúde e para as pessoas e favorecer uma maior adesão à vacinação. Adjuvantes avançados também podem desempenhar um papel importante ao apoiar o desenvolvimento de vacinas mais eficazes para diferentes populações e necessidades. A inteligência artificial representa uma oportunidade importante para acelerar a pesquisa, otimizar processos e apoiar a análise de dados ao longo do desenvolvimento de vacinas. No entanto, a adoção bem-sucedida de qualquer inovação depende de evidências científicas sólidas, capacidades robustas de produção, padrões de qualidade e avaliação regulatória. Em última análise, inovar em vacinas não significa apenas desenvolver novas tecnologias, mas criar soluções que possam ser produzidas de forma confiável, disponibilizadas de maneira eficaz e contribuir para melhores resultados em saúde.

Que tipo de parceria de longo prazo a SINOVAC pretende construir com o Brasil para ampliar o acesso a vacinas e a preparação para futuras emergências de saúde pública?

Queremos construir uma relação de longo prazo com o Brasil que combine fornecimento confiável, transferência de tecnologia, produção local e desenvolvimento de pessoas e instituições. As PDPs já anunciadas oferecem uma base importante para essa colaboração ao longo dos próximos anos. Ao mesmo tempo, a preparação para futuras emergências de saúde pública exige pesquisa contínua, cadeias de suprimentos mais resilientes e capacidade de responder rapidamente a novas necessidades. Nossa intenção é continuar construindo essa agenda em conjunto com as instituições brasileiras, com planejamento, transparência e foco em resultados que contribuam para ampliar o acesso da população às vacinas.

Compartilhe

Recentes

Mais lidas

plugins premium WordPress